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Não fechar os olhos

Por: Klésio Hamada

 

Ivalda Alves da Silva, de Patos de Minas (MG), formou-se em Serviço Social, na Pontifícia Universi-dade Católica de Belo Horizonte. Uma mulher de grande sensibilidade, repleta de valores humanos. Em 1968, descobriu o Movimento dos Focolares. Encontrou uma enorme consonância entre as suas aspira-ções e o Ideal da Unidade, que abraçou com radicalismo.
Apaixonada por sua cidade e atenta às questões sociais, decidiu abrir mão de uma vida cômoda e abastada para ampliar seus horizontes: "A distância entre ricos e pobres, o consumismo e a miséria sempre foram para mim motivo de inquietude".


Logo após a formatura inicia seu primeiro trabalho em Patos de Minas, num bairro muito carente. Os moradores eram provenientes de comunidades rurais em busca de uma vida melhor. Ivalda logo percebe que o tecnicismo frio e vertical que tanto havia estudado não era a resposta para aquele bairro. Só o amor poderia fincar bases sólidas e responder às suas exigências mais profundas. Desenvolve com as crianças atividades de recreação, leitura e catequese.

 

 A alegria e a mudança no comportamento dos filhos atraem as mães e os pais a participarem das atividades comunitárias. Em pouco tempo a comunidade, dispersa, se organizou, os relacionamentos melhoraram e as lideranças comunitárias foram identificadas. Como consequência da organização do bairro surgiu a "Fiação e Tecelagem" - uma atividade em rodas de fiar característica do interior mineiro. Com esse trabalho ficou garantida a única fonte de renda de muitas famílias.


A comunidade já estava transformada! Tanto que até as "Folias de Reis" - típica expressão da religi-osidade e da cultura popular - foi resgatada e o bairro tornou-se uma referência cultural.

 

Um passo após o outro


Com esses avanços, tornou-se necessária uma sede para a comunidade. A Administração Fazendária local, que há algum tempo já via os resultados positivos dos trabalhos sociais realizados no bairro, doou um terreno.
A seguir Ivalda enviou à Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado um projeto de formação de pedreiros. Recebeu a verba para remuneração de um monitor e o material necessário: tijolos, cimento e areia. A construção da sede comunitária foi concluída rapidamente. Logo depois, iniciaram os cursos de corte, costura, bordado, cabeleireiro e manicure, entre outros.

 A Prefeitura atendeu ao pedido de instala-ção de uma escola infantil e disponibilizou duas professoras. Mais tarde, com recursos financeiros rece-bidos da Alemanha, Itália e de empresas locais, foram concluídos mais três salas para cursos e reuniões. Hoje, às pessoas que se surpreendem com o desenvolvimento do bairro, Ivalda responde: "Parecia um sonho! Não tínhamos nada, nem sabíamos por onde começar, mas sempre acreditei!"

 

Ao escutar uma pessoa.


Numa de suas muitas viagens de trabalho, Ivalda, com seu jeito sereno e paciente, encontra uma senhora que abre o seu coração: casada, com filhos pequenos, tinha um lar tranquilo e uma situação financeira estável, mas não conseguia ajudar o marido que se tornara alcoólatra. Com o passar do tempo, aquela família encontrou ainda outros amigos que a ajudaram a superar a crise matrimonial, a vencer o alcoolismo e a resgatar os valores familiares perdidos. Tudo isso foi possível a partir daquela conversa, tam-bém com a contribuição dos Alcoólatras Anônimos.


Ivalda despertou para uma nova possibilidade de ajudar: conhecia diversas pessoas em Patos de Minas que se tornaram vítimas do álcool. Reúne, então, um grupo de lideranças locais, um juiz de direito e um promotor de justiça. Entra em contato com um sacerdote recém-chegado à cidade que co-nhece os Alcoólatras Anônimos. Conclusão: depois de poucos dias, a Irmandade dos Alcoólatras A-nônimos estava implantada em sua cidade. Um grande número de homens e também de mulheres con-seguiu superar essa dificuldade, sanando as feridas de muitas famílias. Atualmente existem sete cen-tros de encontros nos diversos bairros de Patos de Minas e outros centros em cidades vizinhas. Ivalda confessa: "Tudo nasceu do simples fato de parar para ouvir uma pessoa e não fechar os olhos diante das necessidades dos outros".

 

Disponibilidade sem medidas


Percorrendo as casas de um bairro de sua cidade, Ivalda percebeu que um significativo número de senhoras, por serem idosas ou por virem do campo, não tinham chances de emprego. Não se deteve enquanto não encontrou uma solução. Dessa vez foram teares que Ivalda conseguiu e instalou num local onde são atendidos os idosos do município. Ela adquiriu o algodão e organizou um grupo de senhoras. O grupo cresceu, começou a produzir e a vender as peças tecidas. A renda era dividida entre elas. Al-gumas sofriam inclusive de deficiências mentais e constantemente se desentendiam, mas mesmo assim foram envolvidas no trabalho.

 
Para alguém que a aconselhou repousar, Ivalda respondeu: "Enquanto meu coração pulsar, eu ainda quero continuar trabalhando pelos outros".
Hoje, aos 81 anos, ela não pode mais estar diretamente no "campo de batalha", mas onde se encontra continua sua missão. O seu segredo? Uma frase do evangelho que lhe foi proposta por Chiara Lubich para ser colocada em prática: "Nós amamos porque Ele nos amou primeiro" (1Jo 4,19).


"Às vezes, sentia-me angustiada em pensar que poderia ter feito mais ou melhor, diz Ivalda. Um dia entrei numa igreja e encontrei um folheto. As palavras contidas nele me ajudaram a acreditar que sou somente uma colaboradora de Alguém que tem paciência com o homem e com a história. Eram de dom Hélder Câmara e lembro-me apenas de algumas frases: 'Bendito sejas, Pai, pela sede que despertas em nós, pelos planos arrojados que nos inspiras, pela chama que és Tu mesmo crepitando em nós. (.) Que importa se a sede fique em grande parte insatisfeita? Que importa que os planos fiquem mais no desejo do que na realidade? Quem sabe mais do que Tu, que o êxito independe de nós, e só nos pedes o máxi-mo de entrega e boa vontade? (.)'".

Os artigos desta seção podem ser reproduzidos parcial ou totalmente desde que sejam citados a fonte e o autor. Imagens: só com autorização escrita da Editora Cidade Nova

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