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Um raio X do jornalismo

Por: Valter Hugo Muniz

 

Diariamente entramos em contato com os mais variados produtos comercializados pela "indústria da mídia". Pode parecer estranho, mas sempre que acessamos sites de notícias, compramos revistas, ouvimos rádio ou assistimos telejornal, alguém está ganhando dinheiro com isso.
Olhar o mundo jornalístico dessa perspectiva não é algo comum. Uma grande parte da população ainda vê com certa inocência o serviço prestado pelas grandes empresas de comunicação.


Diante deste e de muitos outros paradoxos que, impulsionados pelo frenesi ditado pela tecnologia, geram questionamentos sérios em relação à mediação social dos acontecimentos, parece evidente entre os profissionais da área que o jornalismo está em crise.
Atualmente no Brasil poucas pessoas possuem um vasto conhecimento da história do jornalismo e contam décadas dedicadas ao ensino da profissão como o professor da Universidade Metodista de São Paulo, José Marques de Melo.


Nascido em 1943, em Palmeiras dos Índios (AL), José Marques de Melo começou a trabalhar aos 15 anos como assessor cultural da prefeitura de Santana do Ipanema (AL). Em 1961, iniciou os estudos na Fa-culdade de Filosofia, Ciências e Letras na Universidade Católica de Pernambuco, em Recife, onde se formou em jornalismo em 1964. Um ano depois, terminou também a Faculdade de Direito na Universidade Federal de Pernambuco. Hoje, doutor e livre-docente em Ciências da Comunicação, com ênfase em Jorna-lismo pela Universidade de São Paulo, já publicou cerca de 50 livros e coletâneas, além de mais de uma centena de artigos científicos no país e no exterior.


Marques de Melo também assumiu a coordenação de uma comissão de professores de jornalismo, organizada pelo Ministério da Educação, para rever as diretrizes da graduação que formará os futuros profissionais da área.
Discreto e acolhedor, José Marques de Melo conversou com Cidade Nova sobre jornalismo e sobre esse trabalho para o Ministério da Educação, que pode ajudar a apontar os novos rumos para "um dos pilares para o fortalecimento da democracia no Brasil", como declarou o Governo Federal.

 

Cidade Nova - Quando teve início o ensino de jornalismo no Brasil?


José Marques de Melo - O primeiro curso oficial foi o curso livre de jornalismo, ministrado por Vitorino Prata Castelo Branco, em São Paulo, em 1943. Oficialmente, o ensino de jornalismo no país começou em 1947, na Universidade Cásper Líbero, também na capital paulista.

 

Por que foi necessária uma graduação de jornalismo no Brasil?


Desde 1908, quando foi criada a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), os jornalistas já sentiam a necessidade de formação profissional. Gustavo de Lacerda, fundador da ABI, propôs na plataforma des-sa nova entidade a manutenção de uma escola de jornalismo. Segundo ele, as redações dos jornais in-corporavam duas castas: a dos "engravatados", redatores que, de um modo geral, pertenciam às famílias proprietárias dos jornais (aparentados, genros, sobrinhos), que normalmente faziam Direito e iam para as redações; e os jovens que vinham da classe média, que ele chamava de "fuçadores de lixo".

 Tratava-se dos repórteres que iam para as ruas entrevistar as pessoas e descobrir o que estava acontecendo na sociedade, levantando a tampa das coisas que não eram tão agradáveis. O que ele reivindicava era jus-tamente uma escola para formar repórteres, profissionais de boa qualidade que pudessem ascender nas estruturas das organizações jornalísticas. Mas ele morreu muito cedo.

Assim, em 1947 o empresário paulista Cásper Líbero, proprietário de uma companhia jornalística, entendeu que não era possível man-ter seu negócio sem profissionais qualificados. Não podia se dar o luxo de transformar o seu jornal nu-ma escola de formação, como acontecia na maioria dos veículos. Então resolveu investir na formação de profissionais, pois era proprietário do Jornal Gazeta, da Gazeta Esportiva, da Rádio Gazeta e depois da Televisão Gazeta. Ele criou, assim, a faculdade de jornalismo Cásper Libero, em imagem e semelhança a uma faculdade que visitou nos Estados Unidos, na Universidade de Columbia.

Como foi o processo de regulamentação da profissão?
Na verdade, sempre houve uma luta de jornalistas (profissionais diplomados) pela regulamentação da profissão, para evitar que o mercado específico deles fosse invadido por aventureiros. Até 1969 qual-quer pessoa poderia ser jornalista no Brasil. Portanto, o sindicato sempre estava demandando perante o Poder Público, ao Ministério do Trabalho e ao presidente da República, a promulgação de uma legisla-ção que pudesse dar exclusividade aos formados. Isso foi conseguido por meio do Decreto-Lei de 1969, que regulamenta a profissão e determina que ela passe a ser privativa dos portadores de diploma univer-sitário. Mas a própria lei já abria algumas exceções, por exemplo, para os colaboradores que escrevem artigos para manifestar só a própria opinião. Isso não foi impedido. Também para as regiões onde não havia curso de jornalismo a obrigatoriedade foi gradativamente implantada na medida em que havia profissionais diplomados. Em muitas partes do país, no Norte, no Centro-Oeste, no Nordeste, ainda não havia esses cursos.

O jornalismo, hoje, está em crise?


O jornalismo sempre está em crise e é bom que esteja; porque quando não está, ele se acomoda. A crise atual tem uma dupla face. Primeiro é uma crise de qualidade: nós estamos buscando maneiras para ter um jornalismo que satisfaça aos desejos da sociedade. Em segundo lugar, é uma crise tecnológica, porque está mudando radicalmente o modo de produzir notícias, de difundi-las e nem sempre as empresas estão preparadas para essas alterações.

Como o senhor vê os profissionais da grande imprensa?


Todo jornalista é ambicioso e tem algumas características que são inerentes ao próprio sistema. O jornalista está exposto, ele não pode ficar atrás da sua pena, do seu computador. Ao escrever, ao apare-cer, ele está se expondo à opinião pública e, consequentemente, há uma dose de narcisismo nisso. Es-sas novas gerações talvez exacerbem mais a questão da imagem pública, porque evidentemente nós vivemos num mundo de entretenimento, de estrelato e, muitas vezes, há a tentação do jornalista de, em vez de fazer a notícia, ser a notícia. Entretanto, ele não pode se transformar na notícia. Ele tem que ser o mediador da notícia.

Como o senhor mesmo afirmou, a faculdade de jornalismo foi um desejo da classe de profissionais. Na sua opinião, ela ainda está formando profissionais com o anseio de mudança da sociedade?


Acredito que sim, mas é claro que há universidades que são mais dinâmicas, mais engajadas e outras mais inertes e lentas. Eu viajo pelo Brasil inteiro e converso com as novas gerações e com profissionais da área e não muda muito. O que muda são as circunstâncias. No fundo, a profissão é a mesma, a atividade é a mesma. Agora é mais intensa que no passado porque os fatos acontecem com mais espontanei-dade e a sua divulgação é mais instantânea. Antigamente não havia meios tão rápidos e podíamos esperar 24 horas para tomar decisões. Agora você tem de tomar decisões "em cima da bucha"; saber o que é notícia, o que não é, o que vai divulgar, o que não vai, mas tem de apurar sempre. Apuração é fundamental, você não pode ser um ficcionista.

 

Qual está sendo o trabalho da comissão de jornalistas organizada pelo Ministério da Educação?


O ministro da Educação me convidou, em 2008, para presidir essa comissão em função das novas diretrizes. Disse-me que o governo está preocupado com a formação de profissionais em áreas estratégicas do país. A preocupação do governo atual é fortalecer a sociedade democrática e eles identificaram que ela possui quatro pilares fundamentais: a medicina, o direito, a pedagogia e o jornalismo. O Ministério (da Educação) desejava iniciar uma reforma do ensino superior tendo esses quatro pilares como referência. Foi a partir daí que o jornalismo entrou nesse circuito. Eu aceitei esse trabalho de coordena-ção porque considero fundamental fortalecer a democracia no Brasil e pelo fato de que as diretrizes atuais são de dez anos atrás. Não são tão velhas assim, mas o jornalismo é muito dinâmico, precisa se reci-clar a cada década e é isso que nós buscamos fazer.

 

O senhor é a favor do diploma de jornalismo?


Eu sou a favor da formação superior para o jornalista. Eu acho que todo jornalista profissional que não tenha nenhuma experiência deve passar por bancos escolares de qualquer profissão de nível superi-or: precisa passar pela universidade.

Não necessariamente o de jornalismo?


Ele precisa estudar jornalismo. Se ele não estudar jornalismo, ele vai buscar esse conhecimento aonde? Aonde ele vai estagiar? Quando eu digo que ele não precisa ter diploma, quero dizer que ele pode ter o diploma de graduação ou de pós-graduação em algum curso superior. É assim que funciona em todas as partes do mundo. Você é um médico e tem vocação para o jornalismo, então, você vai fazer um curso de pós-graduação. Você obtém um mestrado profissionalizante e adquire o conhecimento que o jovem da graduação tem. Acho que toda a profissão deve ser dessa maneira. Senão, para que serve o curso superior?

 

O senhor consegue identificar as mesmas características da sua geração nas gerações atuais?


Talvez haja um pouco mais de irreverência em relação ao passado. Mas essas são características dos tempos. Eu me sinto identificado com as novas gerações. Eu não sou um velho que diz "que bons tem-pos eram os meus". Eu sou otimista, eu acho que dias melhores virão.


"O jornalismo sempre está em crise e é bom que esteja; porque quando não está, ele se acomoda"

 

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