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Internacional

Uma cultura de reconciliação, paz e diálogo

Por: Daniel Fassa

 

Elad Morad nasceu em Israel em 1982, assim como George Ijha, palestino de Jerusalém. Elad foi oficial das Forças Especiais do exército de seu país. George viveu numa área ocupada pelos israelenses. O senso comum poderia considerar impossível uma convivência pacífica entre os dois. Mas eles são bons amigos. Mais do que isso, partilham o mesmo espaço, desenvolvem projetos juntos e testemunham que o diálogo e a fraternidade, na diversidade, não são uma utopia.


O cenário dessa grande descoberta é um pequeno burgo medieval do século XI, localizado na cidade italiana de Arezzo. Ali se desenvolve o projeto Rondine - Cidadela da Paz - que promove a convivên-cia de jovens provenientes de países em conflito: jovens que, em suas terras, seriam potenciais inimigos. Reunidos voluntariamente nesse campo neutro italiano, eles compartilham uma residência estudantil, frequentam cursos de graduação ou pós-graduação em universidades da região e participam de diversas iniciativas culturais, educacionais, artísticas e ecumênicas que complementam as experiências acadêmica e comunitária.


A ideia dessa convivência é criar relacionamentos sólidos e contribuir para derrubar eventuais barreiras entre eles. Para Elad, o conhecimento mútuo é fundamental na superação dos conflitos. "Entre os principais problemas de ambos os lados, israelense e palestino, está o fato de um não saber nada sobre o outro. Esse desconhecimento leva as pessoas a imaginar e a criar coisas inexistentes".

 

O início


A semente da Cidadela da Paz foi plantada em 1977 quando o então bispo de Arezzo, dom Telesforo Cioli, confiou a algumas jovens famílias o uso da igreja e de estruturas adjacentes no antigo burgo de Rondine. Nasceu assim a Comunidade de Rondine, empenhada na reconstrução da cidadela medieval - até então, em completo abandono. Nos anos sucessivos, Rondine tornou-se um centro de formação para famílias e jovens, e passou a acolher famílias em dificuldades.


Em 1990 nasce a Associação Rondine, com o propósito de realizar ações de solidariedade e intercâmbio cultural. Nesse período, desenvolveram-se sólidos relacionamentos com a Federação Russa. O ano de 1997 marca o surgimento do primeiro grupo internacional de estudantes de Rondine, com a chegada de cinco alunos da Chechênia e da Rússia.


Ao longo de 12 anos de existência, a Cidadela da Paz já acolheu jovens de dez países, que vivem ou viveram recentemente situações de conflito: Rússia, Cáucaso do Sul, Bósnia-Herzegóvina, Macedônia, Sérvia, Serra Leoa, Israel, Palestina, Líbano e Romênia. No ano acadêmico de 2009/2010, são 23 estudantes: 12 rapazes e 11 moças, cuja presença só se tornou possível a partir de 2007, com a inauguração da ala feminina da residência estudantil. Os estudantes são mantidos com o auxílio de bolsas concedidas pelo Ministério de Relações Exteriores italiano e por diversas instituições públicas e privadas que compartilham do ideal de Rondine.


O pequeno número de estudantes - apenas 60 passaram pela Cidadela desde 1997 - é um caráter distintivo do projeto Rondine. Acredita-se que a intensidade e a qualidade da experiência humana vivida na Cidadela provêm justamente da dimensão reduzida de estudantes de vários países. "É um lugar excepcional, onde se criam relacionamentos e confiança mútuas. Rondine me proporcionou a oportunidade de me encontrar com outras pessoas (inclusive israelenses) em um terreno neutro", explica George, que está se especializando em "Desenvolvimento Humano Local e Cooperação Internacional".

 

Atividades


Durante o período de permanência na Cidadela da Paz, os universitários se engajam em ações de di-vulgação, seminários, conferências e "encontros de testemunho" com escolas da região, por meio dos quais, a cada ano, cerca de 2.500 estudantes de todos os níveis de ensino entram em contato com Ron-dine. Todos esses eventos, além de difundirem a experiência de paz e diálogo, permitem desenvolver o senso de responsabilidade, espírito de liderança e capacidade de relacionamento com o diferente.
Ao fim do percurso, com duração média de dois anos, espera-se que cada um se insira novamente na própria realidade e se torne um ponto irradiador do espírito de Rondine.


Elad está fazendo mestrado em "Economia e Cooperação Internacional" e acredita muito nessa perspectiva futura: "Para mim, como ex-soldado, que segurou armas por tanto tempo, é incrível viver em um lugar como Rondine e, mais ainda, ter entre meus melhores amigos pessoas da Palestina, do Líba-no.Eles são minha família aqui. Eu conto com eles e eles, comigo. Então, se funciona aqui, por que não deveríamos fazer funcionar entre os nossos países?"


Por isso, o trabalho da Associação Rondine não se encerra com a partida dos estudantes. A articulação com universidades, instituições e empresas de seus países de origem é fundamental para o projeto. Essa é a oportunidade que os formandos têm para colocar em prática, com o apoio da Associação, os projetos desenvolvidos durante os anos de experiência acadêmica e comunitária na Itália, constituindo-se assim em testemunhas e construtores de uma cultura de reconciliação, paz e diálogo.


George e Elad já têm os seus planos, obviamente. "Em todo o mundo os jovens têm a possibilidade de fazer a diferença, mas não na Palestina, porque existem muitas dificuldades que nos impedem de falar, de emergir. Ainda assim, creio que as mudanças virão dos jovens. Por isso, quero criar redes de jo-vens, networks que deem espaço aos jovens e que sejam fortes", explica George. Elad, por sua vez, pre-fere manter segredo por enquanto, mas diz: "Minha experiência aqui em Rondine terá um impacto e-norme sobre meus projetos futuros".

 

Universidades pela paz


A partir da experiência vivida na Cidadela da Paz nasceu, em 2009, o "Uni4 - Laboratório universitário pela paz em quatro continentes". Envolve universidades da Europa, Ásia, América e África. O objetivo do projeto é alimentar o debate sobre identidade e diálogo entre culturas diversas, bem como enfrentar concre-tamente a questão de como a cultura universitária pode contribuir na gestão de conflitos entre os povos.


O laboratório foi dividido em três módulos de seminários de estudos, realizados em Rondine, Arezzo e Florença. Os dois primeiros - "Questão de identidade" e "Universidades: canteiros de paz" - foram realizados em 2009. O último, intitulado "Além dos conflitos", ocorre entre janeiro e abril deste ano (2010) e versa sobre as guerras esquecidas, ou não resolvidas, dos Bálcãs à África, do Oriente Médio ao Cáucaso.


"Se nós realmente queremos construir a paz, temos que agir através da educação. Primeiro formando os educadores, os professores, para mostrarem o que é a verdadeira paz. Depois, educando as próximas gerações para a paz", afirma Andrei Rami Rodan, doutorando da Universidade de Haifa (Israel), participante do módulo "Universidades: canteiros de paz".


Rodan dirige a ONG "Velas pela paz", que desenvolve um trabalho semelhante ao de Rondine, reunindo estudantes árabes, palestinos, judeus e israelenses em empreendimentos marítimos com barcos a vela. Depois das expedições em alto mar, que servem para derrubar estereótipos e construir confiança, os jovens retornam a suas comunidades de origem e "recrutam" adolescentes para novas viagens. "Dizem que quando se joga uma pedra na água, propagam-se pequenas ondulações. O que nós queremos é propagar enormes ondas de paz", explica Rodan.


Reconstruindo países


Josephine Saffa vem de Serra Leoa, país da África Ocidental com cerca de 6 milhões de habitantes, que sofreu uma guerra civil durante 11 anos, até 2002. Integrante do grupo internacional de estudantes de Rondine, ela está fazendo mestrado em "Desenvolvimento Humano Local e Cooperação Internacio-nal" na Universidade de Florença. Josephine contou à Cidade Nova um pouco da sua experiência:


"A situação hoje (em Serra Leoa) é estável, mas nós ainda vivemos os efeitos da guerra: a pobreza, as crianças-soldado, as pessoas que perderam seus familiares, as muitas viúvas que não têm mais como sustentar suas famílias. Estamos reconstruindo nosso país, por isso esta experiência é muito importante para que eu possa dar minha contribuição no desenvolvimento econômico. Espero trabalhar em coope-ração internacional ou em organizações que promovem o desenvolvimento local".
D. F.

 

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