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Focolares

Um novo caminho na Igreja

Por: Oreste Paliotti, Fernanda Pompermayer

 

No âmbito dos Focolares estamos numa época de comemorações. Recém-concluídos os eventos dos 50 anos de presença no Brasil, recordamos os 70 anos da primeira centelha de inspiração que Deus con-cedeu a Chiara Lubich, levando-a a entrever - sem ainda compreender claramente - o caminho que Ele a chamava a percorrer na Igreja.


No início da história do Movimento dos Focolares está uma família, a mais extraordinária que viveu nesta terra: a família de Nazaré, composta por Jesus, Maria e José. Inúmeros cristãos se santificaram seguindo o seu exemplo. Foram numerosos também os fundadores que se inspiraram nessa convivência humano-divina.


Nessa linha de novidade e originalidade surgiu o carisma que Deus concedeu a Chiara Lubich, origem de um "quarto caminho" diante das possibilidades que se apresentavam naquela época: casar-se e formar uma família, entrar num convento ou consagrar-se a Deus permanecendo em casa.


O "quarto caminho" é o focolare, com a sua característica de unidade divina, encarnada numa convi-vência familiar composta por virgens e casados, cuja primeira intuição Chiara teve em outubro de 1939. Ela não passava de uma jovem de 19 anos, que ainda se chamava Sílvia (mais tarde, ao ingressar na Ordem Terceira Franciscana, adotaria o nome de Chiara, em alusão a Clara de Assis). Aconteceu em Loreto (Itália), onde se encontra o famoso santuário cuja tradição reza que contém entre suas paredes a casa onde morou a Sagrada Família, em Nazaré, levada até lá por uma multidão de anjos. Mais tarde descobriu-se que, durante as Cruzadas, uma família italiana cujo sobrenome era Angeli (ou seja, "Anjos"), custeou o transporte das ruínas da casa até Loreto.


Da casa de Loreto à pequena casa da Praça dos Capuchinhos, nº 2, em Trento, o primeiro focolare: uma história fascinante!

 

Uma viagem a Loreto


Em 1939, a Europa vivia momentos cruciais, após a invasão da Polônia pelas tropas nazistas. A Itália, ligada à Alemanha pelo "Pacto de Aço", havia assumido o compromisso de intervir militarmente ao seu lado, mas ainda não estava envolvida. Ao mesmo tempo, já sofria com leis internas de racionamento de víveres, de combustíveis, de ferro e de cimento. No início de setembro Grã-Bretanha, Austrália e França declararam guerra à Alemanha, seguidas pelo Canadá e pela África do Sul. Tudo preanunciava o início de um conflito. Sílvia Lubich havia sido convidada para participar de um retiro espiritual, mas diante desse cenário seu pai não permitiu.


Em 27 de setembro, com a rendição de Varsóvia às tropas alemãs, a Polônia ocidental foi incorpora-da ao Terceiro Reich. A parte Oriental coube à União Soviética de Stalin. O perigo de um conflito imediato parecia desaparecer. Por isso, o pai da jovem Sílvia não se opôs ao convite que ela recebera para participar do retiro, de 2 a 8 de outubro, desta vez em Loreto, a 350 km de Trento.


Sílvia exultou! Além do mais, tratava-se da cidade onde havia "aquela" casa. Ela não se interessava se era verdade ou não o que a tradição falava sobre a casa de Nazaré. O importante para Sílvia era a ligação com aquela experiência vivida por Jesus, Maria e José.

 

Contemplação e comoção


Depois de se alojar no colégio das Irmãs Vicentinas, no primeiro tempo livre Sílvia correu até o santuário mariano, repleto de peregrinos que iam e vinham. No centro da nave, exatamente sob a cúpula, os mármores brancos esculpidos reluziam, protegendo a "casa". Dirigiu-se para lá, sem dar atenção às o-bras de arte daquele templo majestoso.


Na pequena casa transformada em capela, na parede do fundo, entre velas votivas e flores, via-se uma Nossa¬ Senhora negra com o Menino Jesus, envolvidos num manto. Ao olhar para aquelas paredes escurecidas pelas velas e, ao mesmo tempo, lisas pelo contato de incontáveis fiéis, sentiu-se mergulhada numa comoção singular. A sua alma estava completamente absorta pelo mistério que aquele local continha. Aquela família tão extraordinária, que no seu íntimo protegia o Verbo feito carne, havia levado uma vida aparentemente igual a muitas outras, simples e ativa: José dedicado ao trabalho de carpintaria e Maria, aos afazeres domésticos.


Sílvia imaginava ouvir ressoar entre aquelas paredes as canções cantadas por Maria e a vozinha de criança de Jesus. parecia vê-lo passar de um canto a outro enquanto brincava ou ajudava seus pais. Talvez aquela tenha sido a janela pela qual entrara o anjo para anunciar o nascimento do Filho de Deus, talvez. Era contemplação, com lágrimas incontidas: a impressão de ser totalmente envolvida pelo divino.


O fascínio daquela vida com Deus em carne e osso entre José e Maria atraía a jovem como um ímã. Em todos os intervalos do retiro atravessava sozinha a cidade até o santuário. A cada vez se surpreendia ao experimentar a mesma comoção, a mesma experiência divina intensa. De um modo ainda vago ia tomando forma em seu coração um sonho, talvez uma vocação.

O seu "Magnificat"


Quando criança, instruída por uma religiosa, passara muito tempo em adoração ao Santíssimo Sacramento na capela das Irmãs de Maria Menina. Aos 15 anos, sentiu um chamado repentino a tornar-se santa. Seriam os primeiros sintomas de um verdadeiro chamado? Sílvia ainda não havia pensado nisso. Agora, porém, o que sentia em Loreto era muito superior a todas as experiências espirituais vividas até então.


O retiro terminou com uma missa no santuário. Ao sair da casa na última visita que fez, Sílvia ficou impressionda ao ver a igreja repleta de branco (naquela época as jovens da Ação Católica costumavam usar um véu branco na cabeça quando estavam na igreja). Num relance teve uma intuição: uma multidão de virgens iria segui-la. Mas em que caminho? Ela ainda não sabia.


Quase 40 anos mais tarde, o padre Francesco Marcolla, pároco da aldeia onde Sílvia lecionou de no-vembro de 1938 a julho de 1939, deu este precioso testemunho: "Uma vez perguntei a ela sobre o seu futuro: se pensava em casar, se queria ser missionária. estava incerta, não sabia. Perguntei se gostaria de ser uma religiosa; respondeu-me que não.

Depois esteve num santuário, em Loreto, e quando voltou me escreveu uma carta muito profunda. Dizia mais ou menos isso: 'O senhor se lembra de quando conversamos sobre o meu futuro? Desculpe-me se pode parecer presunção. O Senhor fez em mim maravi-lhas. revelou-me grandes coisas. Dei a Deus todo o meu coração, toda a alma, todas as forças e as de-dicarei a ele. Entendi o que Deus quer de mim. Farei tudo o que devo fazer, mesmo que tenha que en-frentar sofrimentos indescritíveis; mas tenho certeza de que a sua graça não me faltará'. No final pedia simplesmente a minha bênção. Percebia-se que, a partir daquele momento, tinha começado a 'voar'. Pa-ra ela foi um encontro com Deus, mas também com Maria: era o seu Magnificat!"

 

Um "quarto caminho"


A vocação de Chiara abria na Igreja um "quarto caminho", que ela ainda não sabia definir. Para ver o seu início foi preciso esperar até 1944. Trento estava sendo duramente bombardeada, os seus familiares se refugiaram fora da cidade e Sílvia (que agora já se chamava Chiara) conseguiu abrigo, juntamente com outras amigas, numa pequena casa na Praça dos Capuchinhos nº 2.


Era o embrião do que hoje se chama "focolare". Ainda não estava completo, pois faltava a presença dos focolarinos e das focolarinas e focolarinos casados, que surgiriam mais tarde. Era uma experiência de vida do evangelho que aguardava os tempos de Deus para revelar o seu projeto.

 


Cidadã honorária de Loreto

 

Em outubro de 2009, numa homenagem póstuma, o presidente da Câmara Municipal de Loreto, Silvano Montinori, conferiu a Chiara Lubich o título de cidadã honorária, recordando os fatos que, 70 anos atrás, ligaram Sílvia Lubich, professora originária de Trento, à casa da família de Nazaré e à cidade ita-liana onde ela se localiza.

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