Ética, teologia e economia
Por: Ricardo Pinto
Como unir economia com ética e teologia? Por ocasião da Conferência de Santo Domingo, em 1993, João Paulo II desenhou essa proposta afirmando a necessidade de se "instaurar uma verdadeira economia de comunhão e participação de bens, tanto na ordem internacional como nacional". Na recente encíclica Caritas in veritate, Bento XVI resgata a proposta desejando que se coloque no centro do mercado e, portanto, da sociedade, dois princípios cristãos fundamentais: a gratuidade e a reciprocidade. Aparentemente um paradoxo. Afinal, esses princípios são dos mais combatidos pelo capitalismo ao longo da história.
Na Europa Ocidental do século XI a ascensão comercial foi enfraquecendo gradualmente a visão ética do valor da pessoa como centro da ação econômica. O lucro passou a ter a primazia. A racionalidade capitalista tenta explicar o lucro como resultado da "eleição de Deus" e sai em defesa da autonomia econômica, diluindo os ensinamentos da religião e da moral. Teóricos como Adam Smith e Max Weber dão uma efetiva contribuição ética ao pensamento econômico, defendendo e declarando a necessidade da humanização dos comportamentos socioeconômicos.
A crescente industrialização e o consequente empobrecimento do operariado do final do século XIX estimulou a consciência cristã. O papa Leão XIII, através da primeira encíclica de cunho social, a Re-rum novarum, instaurou uma relação dialógica e operacional da Igreja com a sociedade, evidenciando a caridade evangélica como fundamento para toda ação social. São fatores que convergem para a significação da Caritas in veritate quando a encíclica mostra a força da caridade e, consequentemente, da gratuidade e da reciprocidade, como aspecto extremamente influente no desenvolvimento socioeconômico.
Se por um lado o sistema econômico globalizado e neoliberal vigente continua colocando o lucro no centro das atividades, por outro, estimula a genialidade humana a dar respostas à problemática social com novas categorias. A comunhão emerge como uma delas.
Nesse cenário, a Igreja é chamada a colaborar. A fonte de seu argumento está na comunhão vivida na Santíssima Trindade revelada por Jesus Cristo. Através do desenvolvimento e atuação da sua Doutrina Social vários sinais já esboçam um sistema com envergadura histórico-universal fundamentado na co-munhão. Empresários e funcionários, abertos a uma linha relacional de superação de éticas diferentes, contraditórias e conflitantes, estão protagonizando novos movimentos.
O projeto Economia de Comunhão na Liberdade (EdC), lançado por Chiara Lubich no Brasil em 1991, emerge como uma dessas respostas. Originada pelo estilo de vida das comunidades do Movimen-to dos Focolares, conta hoje com mais de 700 empresas envolvidas de formas diversas, que têm a comunhão como experiência vital de cada dia. Aberta à cultura e à ciência, a EdC tem se tornado um espaço dialógico de relação e inclusão em vários níveis de influência acadêmica, política e empresarial.
A superação das diferenças sociais passa, indiscutivelmente, por uma experiência relacional de gratuidade e reciprocidade. Nesse sentido a comunhão, como é abordada no projeto de Chiara Lubich, torna-se um paradigma ético-teológico no agir socioeconômico. A Igreja no Brasil e no mundo se interessa cada vez mais por esse projeto que não deve ser considerado filantropia ou assistencialismo, mas como uma teoria econômica que avança e já dá resultados.
A Campanha da Fraternidade deste ano também aprofundará essa proposta.
* O autor é sacerdote, especialista em Teologia Moral e Espiritualidade.
Através do desenvolvimento e atuação da Doutrina Social da Igreja, vários sinais já esboçam um sistema histórico-universal fundamentado na comunhão