Virtual ou real: eis a questão
Por: Giulio Meazzini
Há lugar para todos. Cada um escolhe o próprio nicho, encontra o site ou a tribo que melhor se adap-ta às próprias exigências. As novidades se multiplicam, se espalham, entram na moda e depois decaem, em tempos tão rápidos que só os jovens conseguem acompanhar.
O Facebook - com 300 milhões de inscritos no mundo, - cresce rapidamente e para muitas pessoas se tornou um meio de comunicação normal, como um telefone. Mas já crescem as filas dos que se desiludiram, sufocados pela avalanche de contatos diários.
Quem ainda se lembra de Second Life (com 1,5 milhão de participantes ativos), o mundo virtual tridimensional com lojas, bancos, partidos políticos, piscinas e comunidades, onde cada um interage por meio da "contrafigura" virtual? Desapareceu? Não, ainda existe. Estabilizou-se com o círculo de pessoas que o frequentavam apaixonadamente e que permaneceram fiéis.
Da mesma forma os blogs (1,5 milhão no mundo todo). Cada um tem o seu público, o autor se exprime com maior ou menor regularidade, muitas vezes diariamente, externando as próprias opiniões ou pontos de vista. Hoje todos escrevem. Poucos leem.
Logicamente, um grande número de pessoas não navega na rede, por não poder ou não querer usá-la. É difícil encontrar meias medidas: há quem a louve e quem a descarte.
Mundos fantásticos
O mundo virtual é uma terra de aventuras, com possibilidades de assumir comportamentos sociais e estilos de vida que seriam impossíveis na realidade. A seu tempo a ficção científica permitia imaginar novos mundos, estranhos e fantásticos, onde podíamos mergulhar para fugir da monotonia do dia a dia. Agora o virtual "cria" mundos novos, onde podemos "entrar" para estabelecer novos contatos ou resgatar antigos. Com a vantagem de poder mudar rapidamente: se canso de uma tribo, mudo de identidade e entro numa outra. Hoje Facebook, amanhã MSN ou Second Life, crio o meu blog, me divirto um pouco no YouTube, tenho meus amigos e seguidores no Twitter.
Quantas são as minhas identidades na net? De quantas preciso para me sentir alguém? As pessoas equilibradas na vida real continuam sendo equilibradas virtualmente? Como se comportam na internet as pessoas com distúrbios, com problemas familiares ou afetivos?
Outra característica da dimensão virtual é a velocidade da comunicação, mais com a imagem e o som do que com a palavra. É um estímulo contínuo dos neurônios com vídeos, músicas, clipes, flashes, novas ami-zades, tanto melhores quanto mais excêntricas e bizarras. O que falta? O tempo para aprofundar e refletir com uma abordagem crítica. Alguns especialistas se questionam se as novas gerações ainda conseguem olhar para dentro de si e elaborar com calma a própria vida. A velocidade vertiginosa dos jovens é alta de-mais para os raciocínios "lentos" dos adultos.
A consequência é que, para que circulem pela rede ideias e valores idôneos, é preciso transformá-los em "pílulas", ou seja, pequenos conceitos que consigam "boiar", sem serem submersos no grande cal-deirão informativo. É um "sopão" formado, infelizmente, por muitas superficialidades recicladas com os comandos "copiar" e "colar".
Portanto, para extrair conhecimentos da internet, precisamos saber onde procurar e quem produz conteúdos confiáveis e de alto nível.
Twitter e muito mais
Durante a recente crise no Irã, os opositores conseguiram que vozes e imagens dos protestos cruzas-sem as fronteiras do país graças ao Twitter (que conta com 18 milhões de usuários). É um sistema global que permite a troca de breves mensagens, no máximo de 140 caracteres, entre computadores e celu-lares. Assim como o Facebook, proliferam sistemas para compartilhar a própria vida até os mínimos detalhes.
Muitos consideram tudo isso uma antecipação da sociedade do futuro, a aldeia global que terá cada pessoa como protagonista. A necessidade de comunicar tudo a todos não deixa de ser uma prova da necessidade de construirmos uma única família humana. Pelo menos é um passo à frente da mera ociosidade apática em frente à TV.
Outros acham que se trata do "Big Brother" da internet, um modo de espiar narcisista, que leva à superficialidade e à solidão. Afirmam que somos dependentes da grande rede, que nos tornou mais tolos. A privacidade diminui cada vez mais, a própria vida é revelada em público, somos etiquetados sem poder voltar atrás nas escolhas erradas. Uma transparência exagerada não é sadia, pois comunicando tudo, acabamos vazios. O que precisamos é de reciprocidade e de relações verdadeiras, olhando-nos nos olhos.
Provavelmente, a verdade se encontra no meio termo entre uma concepção e outra e é diferente para adultos e jovens. É só observar com que naturalidade adolescentes e jovens passam do real para o virtual e vice-versa.
Adultos, jovens e o futuro
Diante desses dois mundos distantes, que ainda precisam se integrar, a sociedade se encontra dividi-da: os jovens e os adolescentes vivem no virtual e, por vezes, exageram, beirando a patologia. Os adultos, por sua vez, correm o risco de serem excluídos, expulsos do corpo social que vai em frente.
Convém não nos preocuparmos com os temores dos adultos nem com o exagero dos jovens. Vamos tentar resgatar certa dose de confiança e avançar todos juntos, jovens e adultos, cada um realizando o seu papel na aventura de construir o futuro. Não é necessário sermos especialistas em internet. Precisa-mos, sim, de bom senso, tenacidade, honestidade, capacidade de escutar e amar. São qualidades sempre muito úteis. Inclusive no futuro.