Relacionalidade e memória
Por: Daniela Martí Barros
Existem certas experiências que vivenciamos e que não esquecemos. Por exemplo, uma visita às Cataratas do Iguaçu. A exuberância da natureza combinada com a abundância e a fúria das águas. sem falar no aspecto humano do ambiente, onde se ouvem as mais diversas línguas. Cada uma daquelas pessoas guardará as mesmas imagens de forma particular, pois a memória mescla experiências vividas no ambiente com as nossas vivências interiores.
Portanto, somos seres "únicos" porque aprendemos e lembramos as nossas experiências.
Ivan Izquierdo - um dos maiores pesquisadores do mundo na área de fisiologia da memória - esclarece de forma brilhante que cada indivíduo é diferente de seus congêneres graças, justamente, à memória.
O acervo de memórias de cada um nos converte em indivíduos. Porém, tanto nós como os demais animais, não sabemos viver muito bem em isolamento: formamos grupos. Esse fenômeno é mais intenso e importante quanto mais evoluído é o animal. A necessidade da interação entre membros da mesma espécie ou entre dife-rentes espécies inclui como elemento-chave a comunicação, necessária para o bem-estar e a sobrevivência.
Nas espécies mais evoluídas, o altruísmo, a fraternidade, a defesa de ideais comuns, as emoções coletivas são parte de nossa memória e servem para a nossa comunicação.
Pontos de unidade
Segundo Chiara Lubich, doutora honoris causa em psicologia pela Universidade de Malta (1999) e em pedagogia na Catholic University of America, de Washington DC (2000), somos capazes de ultrapassar os laços culturais ou afinidades, conseguimos ir ao encontro dos outros e descobrir aquilo que realmente nos une, independentemente de raça, cor, credo, língua etc. A capacidade de amar do homem é infinita, pois ele encontra a felicidade somente quando propicia o bem-estar e gera a felicidade nas pessoas com quem se relaciona.
Para Luigino Bruni, professor e economista italiano, conquistar alguém de forma que a pessoa sinta-se receptiva àquilo que estamos tentando transmitir nos faz experimentar o princípio da gratuidade. Ele afirma que "entendemos por gratuidade uma atitude interior que conduz à aproximação com cada pessoa, cada ser, comigo mesmo, sabendo que aquela pessoa, aquele ser vivo, aquela atitude, eu mesmo, não somos coisas para usar, mas com as quais devemos estabelecer uma relação, respeitando-as e amando-as".
Memória e informações
O que tudo isso tem a ver com o processamento da memória? Se fôssemos defini-la de uma forma simples, poderíamos dizer que memória é a aquisição, o armazenamento e a evocação de informações. Biologicamente, a memória consiste na estabilização de redes de neurônios (células nervosas), ativadas por um determinado estímulo que, posteriormente, pode ser reativada. Percebemos que até mesmo as microscópicas células nervosas precisam se relacionar para permitir que formemos lembranças.
A ativação da rede neuronal que nos permite guardar lembranças e aprendizados é regida fortemente pelo aspecto emocional. Portanto, armazenamos melhor as memórias com rico conteúdo emocional.
Antoine de Saint-Exupéry, em sua obra "O Pequeno Príncipe", diz que " Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos". Sabemos que existem estruturas cerebrais que estão diretamente relacionadas com o processamento e a expressão das emoções, essas estruturas compõem o sistema límbico. A consolidação (armazenamento) da memória de longa duração, aquela que armazenamos por dias, meses, anos ou por toda a vida, sofre influência dos "hormônios do estresse", das endorfinas, entre tantos outros. Nossa capacidade de amar e de criar relações é infinita, podemos armazenar tantas expe-riências quanto possível, no entanto, tão importante quanto o armazenamento de informações é seu esquecimento.
É impossível guardar tudo
O fenômeno do esquecimento é fisiológico e desempenha um papel adaptativo. Imaginem se fôssemos capazes de "guardar" tudo o que vivenciamos com riqueza de detalhes!
Existem também as memórias extintas, elas permanecem latentes e não são evocadas, a menos que ocorra uma circunstância especial como a apresentação de uma forma muito precisa do estímulo. As memórias extintas podem ser evocadas, as memórias esquecidas não. Assim sendo, o processo de extinção da memória é vital para os relacionamentos. Inúmeras são as situações em que a extinção de memórias passa a ser vital; essas vão desde fobias, transtorno do pânico, estresse pós-traumático, até traumas sofridos durante a infância. e podem assumir características insuportáveis, requerendo acompanhamento de profis-sionais especializados. Porém, às vezes, pequenas ofensas, fracassos, impedem nossos relacionamentos.
No entanto, somos capazes de extinguir "muitas informações", especialmente as desagradáveis e que nos geram desconforto, melhorando de forma significativa a qualidade das nossas relações. Toda vez que exercitamos nossa capacidade de enxergar as coisas com um novo olhar, a partir da extinção de fatos que nos aborrecem, refinamos a nossa "relacionalidade". Damos uma "chance" a nós mesmos e aos outros!
Assim como somos capazes de armazenar infinitas memórias, somos também capazes de recomeçar infinitas vezes.
Na essência, para vivermos melhor e aprimorarmos nossa capacidade de relacionamentos, fazemos "questão" de perpetuar as boas memórias e de extinguir as que nos impedem de amar.
A autora é Doutora em Ciências Biológicas e coordenadora do Laboratório de Neurociências do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Rio Grande (RS) - FURG.
As células nervosas em relação
Os neurônios possuem prolongamentos, os axônios, que enviam informações através da liberação de substâncias (neurotransmissores), e dendritos, que recebem as substâncias liberadas pelas terminações dos axônios. Os neurotransmissores (dopamina, acetilcolina, noradrenalina, serotonina etc.) ao serem liberados em uma pequena fenda entre os neurônios, denominada sinapse, ligam-se em proteínas da superfície celular, chamadas de receptores.
Para que a memória seja processada os neurônios devem estar em estreita relação, pois quando aprendemos algo ou guardamos alguma coisa na memória uma "rede" de neurônios é ativada e as conexões, ou seja, a comunicação entre eles é fortalecida através de uma série de processos biológicos no qual há um grande aumento da "força sináptica" e há também o crescimento dos neurônios, que pode ser comprovado pelo aumento e crescimento do que chamamos de "espinhas dendríticas".
A esse processo damos o nome de "plasticidade neuronal". Como o próprio nome nos revela, é um processo dinâmico, plástico, onde poderá haver um crescimento ou uma diminuição entre essas comunicações neu-ronais se essas redes forem menos utilizadas ou recrutadas, ocorrendo a perda ou dimi