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Uma paz possível?

Por: Fernanda Pompermayer

 

Livro: A paz preventiva: Esperanças e razões num mundo de conflitos
Autor: Andrea Riccardi
Editora: Cidade Nova, São Paulo, 2008

 

A guerra e a ausência dela - a paz - são questões que envolvem a humanidade desde que o homem surgiu na terra. Até a narração bíblica da Criação já destaca o fratricídio entre Caim e Abel. O próprio termo "Guerra e Paz" inspirou Tolstoi na sua obra-prima, um marco na literatura mundial.
Hoje, adentrando-nos no século XXI a passos largos, percebemos que a humanidade evoluiu a um nível impensável em termos de ciência, tecnologia, conhecimento. Esse crescimento, ao invés de levar à paz, desenvolveu ainda mais a indústria da guerra = indústria da morte.


Em sua obra "A paz preventiva" o historiador italiano Andrea Riccardi - professor de história contemporânea da Terceira Universidade de Roma e também fundador da Comunidade de Santo Egídio - aborda a questão da paz num grande leque de expressões, fruto de conferências feitas pelo autor em vá-rias partes do mundo: a busca pela paz, a cultura do medo, o papel dos cristãos, a violência da pobreza, a impotência diante da guerra, o fenômeno contemporâneo do choque de civilizações.

 
Riccardi tem atrás de si, além de uma bagagem indiscutível de conhecimento, também a experiência desenvolvida na Comunidade de Santo Egídio - uma das novas comunidades eclesiais que enriquecem a Igreja desde 1968 - que abraçou o convite de João Paulo II na histórica Jornada de Oração pela Paz, em Assis (27 de outubro de 1986) e deu continuidade ao "espírito de Assis", realizando a cada ano, em locais diferentes, uma Jornada de Oração pela Paz, com expoentes de várias confissões cristãs e religiões.


Mas a busca da paz não se restringe à oração. Em 1992, a Comunidade de Santo Egídio, representada por Riccardi e outros membros, obteve a assinatura de um tratado de paz em Moçambique, entre o governo e as forças guerrilheiras. Uma guerra que se arrastou durante 16 anos, com um saldo de 1 milhão de mortos, outro milhão de migrantes e 4 milhões de refugiados. O acordo de paz foi um sucesso obtido após mais de dez anos de contatos, diálogo e mediação da Comunidade, que envolveu a ONU e representantes de vários países do Ocidente. Foi uma experiência piloto que comprovou a força do diálogo, a "força fraca", como a chama Riccardi, referindo-se à afirmação de são Paulo: "Quando sou fraco, então é que sou forte" (cf. 2Cor 12,10).


O diálogo deve ser conquistado, buscado, sem imposições. Para a Igreja Católica trata-se de um compromisso que remonta ao Concílio Vaticano II e que amadureceu em contato com várias realidades culturais. Posteriormente, na encíclica Populorum progressio, de 1967, Paulo VI afirmou: "Entre as civilizações, como entre as pessoas, um diálogo sincero torna-se criador de fraternidade".


"A paz preventiva" nos impele a esse diálogo de um modo concreto, coerente e dinâmico. O livro nos dá realmente esperanças e razões para continuarmos vivendo e lutando pela paz a cada dia num mundo de conflitos.

 

Resenha


"No mundo globalizado, não fomos na direção do cosmopolitismo ou de uma vida sem fronteiras, como se supunha alguns anos atrás, inclusive pelos grandes deslocamentos de população, as imigrações, a facilidade de comunicações. Com frequência, a amplidão dos horizontes, os processos de globalização e de ocidentalização (.) chegam a provocar uma reação negativa em alguns grupos.

Assim, algumas identidades vão se reestruturando e se definindo como um processo de contraposição. Benjamin Barber falou de Jihad x MacMundo: o fundamentalismo frequentemente é uma reação à ocidentalização do mundo ou a uma globalização agressiva, em resumo, a MacMundo. As identidades se reestruturam sobre os horizontes das antigas fronteiras, enquanto a religião é chamada a sacralizá-las" (trecho do livro "A paz preventiva - Esperanças e razões num mundo de conflitos", p. 30).

 

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