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Editorial

É preciso não esquecer

Por: José Antônio Faro

 

E afinal, como está a situação atual do Haiti? Certamente, a tragédia humanitária causada pelo terremoto, e intensificada pelo estado de pobreza do país, continua. Então, por que não se tem mais notícia sobre o assunto?
Uma das críticas mais comuns que se faz à mídia é de que ela esquece rapidamente dos acontecimentos que ela mesma levou ao conhecimento de todos. A necessidade de acompanhar os fatos em tempo real criou a corrida cada vez mais frenética pela novidade, que muda a cada dia dependendo do espetáculo do momento.


O foco no Haiti durou só o tempo de comover as pessoas e prendê-las à telinha da TV ou do micro. Felizmente, a compaixão e a solidariedade das pessoas e das instituições estão sempre latentes e são despertadas rapidamente. De fato, as ajudas internacionais bateram recordes no Haiti, como poderemos ler nas "Notas por um Mundo Unido" desta edição. Mas a comoção normalmente passa em pouco tempo, enquanto a tragédia haitiana promete durar muito tempo. A reconstrução de Porto Príncipe, capital do país, vai exigir décadas de trabalho e de recursos humanos e financeiros. E serão necessários séculos para reconstruir a dignidade e a confiança do povo haitiano.


Não podemos esquecer o Haiti. E não apenas porque está em jogo o futuro de um povo que nos últimos séculos tem sofrido freqüentes atentados à sua dignidade, mas também porque o mundo não pode perder o que esse povo tem a dar a toda a humanidade. Além disso, esquecer o Haiti é permitir que a sua história rica de valores humanos e de cultura fique soterrada pelos escombros do terremoto ou pelas imagens de multidões de pessoas famintas e desesperadas vagando pelas ruas.


Na entrevista para Cidade Nova, o cientista político italiano Antonio Maria Baggio, que fundou uma escola de formação política para jovens no Haiti, ressalta a importância que o povo haitiano tem para a história latino-americana. Segundo ele, não se pode esquecer que o Haiti nos ajudou a entender a universalidade dos princípios da Revolução Francesa e, sobretudo, da fraternidade, justificando que Toussaint L'Overture fez a Revolução Haitiana, que deu origem à nação haitiana a partir, justamente, da ideia da fraternidade entre todos.

"Os haitianos proclamaram a primeira república negra da história, mostraram que os negros podiam se autogovernar. Ninguém acreditava nisso. Seu país foi ponto de referência para toda a América. Reconheçamos sua grandeza histórica", explica Baggio.


Com essa edição, Cidade Nova quer dar a sua contribuição para que a dignidade do povo haitiano e de sua história se mantenha viva. A propósito, não seria o caso de nos perguntarmos por que ouvimos tantas coisas sobre a miséria no Haiti e tão pouco sobre a sua história?

José Antônio Faro
jantoniofaro@cidadenova.org.br

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