A lição do Haiti
Por: Daniel Fassa
O mundo está voltado para o Haiti. O terremoto sem precedentes que devastou Porto Príncipe no último dia 12 de janeiro suscitou uma verdadeira onda de solidariedade internacional. Países, personalidades, missionários, agências de solidariedade, cidadãos comuns, todos procuram, de alguma forma, ajudar a pequena nação da América Central a se restabelecer. Mas não é de hoje que o Haiti pede socorro.
E precisará de apoio ainda por muito tempo, principalmente depois que os holofotes do espetáculo midiático se voltarem para uma nova tragédia. "O terremoto ocorreu em uma sociedade que já não conse-guia se sustentar sozinha", afirma Antonio Maria Baggio, professor de Filosofia Política do Instituto Universitário Sophia, de Loppiano (Florença, Itália). Na entrevista que se segue, o estudioso justifica essa afirmação, conta um pouco de sua experiência pessoal no Haiti, vislumbra novas perspectivas e faz questão de ressaltar o que o Haiti pode dar ao mundo: um exemplo de fraternidade universal.
Cidade Nova - Nos últimos anos, o senhor teve um relacionamento bastante estreito com o povo haitiano. Como se deu o primeiro contato? Como foi receber a notícia do terremoto?
Antonio Maria Baggio - Como todos, fiquei extremamente impressionado com a notícia. Eu podia imediatamente dar nomes e rostos àqueles que talvez tivessem morrido. O Haiti é um lugar que muitas pessoas não conhecem, especialmente na Europa. Eu mesmo o descobri muito tarde, uma década atrás, depois de já ter uma carreira como estudioso, de já estar lecionando na Universidade. Fui chamado em 2001 pelo arcebispo de Porto Príncipe, dom Serge Joseph Miot, que está entre as vítimas deste terremoto. Na Itália, havíamos feito uma experiência muito interessante com escolas de formação social e polí-tica para jovens e isso inspirou dom Miot a querer construir uma experiência semelhante no Haiti. Quando estive lá pela primeira vez, eu ainda tinha aquela sensibilidade externa, do europeu. Senti um impacto que teve consequências muito importantes para mim.
Cidade Nova - O que mudou depois desse encontro?
No Haiti, tive um encontro direto com a revolução de Porto Príncipe (1791), com a outra face da Revolução Francesa, a outra face da Europa, a outra face do Iluminismo. Um Iluminismo que, estando no poder, se permitia coexistir, paradoxalmente, com a escravidão. O Iluminismo tão aclamado por anunciar e declarar a universalidade dos direitos humanos - que realmente é um de seus ideais - não conseguia resolver a questão da escravidão. Esse encontro histórico foi muito importante para mim, que tra-balhava com Chiara Lubich na reflexão sobre a fraternidade. Vi nos haitianos um "crucificado" enor-me, que não conseguia ressurgir. Eles são portadores de um sofrimento histórico que decorre da negação dos seus direitos. A fraternidade tinha sido negada a eles.
Cidade Nova - O Haiti já vivia uma situação socioeconômica muito difícil mesmo antes do terremoto. Quais as possibilidades que o país tem para se reerguer?
Quando conheci o Haiti, não encontrei uma pobreza padrão, por assim dizer - não existe pobreza padrão, a miséria nunca é padrão para quem a sofre, é sempre uma dor pessoal. Mas o Haiti tem uma peculiaridade. Eu via que o sofrimento, pelas condições em que se encontrava a ilha, era ainda mais agudo, porque acompanhado de uma consciência da miséria. Dou um exemplo que nunca me canso de re-petir para explicar essa minha percepção: numa tarde de domingo, enquanto dávamos um passeio de carro nas redondezas de Porto Príncipe, vi pessoas muito elegantes pelas ruas, pareciam vestir suas melhores roupas. Vi, então, um idoso, alto, magro, vestido com uma camisa branca, engomada, perfeita, uma calça azul que lhe caia perfeitamente. Usava sapatos de couro preto, brilhantes e, na cabeça, um chapéu muito elegante.
Caminhava como se fosse um rei ao longo de uma rua empoeirada, onde pessoas se amontoavam tentando vender coisas. A um certo ponto, o vi entrando em um barraco feito de madeira e metal. Aquele barraco era a sua casa. O contraste era muito forte. Era como se ele quisesse dizer: "Eu tenho consciên-cia daquilo que eu poderia ser e, aos domingos, me visto como se verdadeiramente eu fosse assim; mas, minha condição de vida é exatamente o oposto".
Essa cena expressa muito bem o sofrimento específico do Haiti, porque o que existe é miséria, é ausência de sociedade civil; as atividades produtivas são mí-nimas e não existe uma autonomia social. Em todos esses anos que se seguiram à ditadura dos Duvalier e também sob Aristide o país tem sido sustentado pela ajuda internacional, pelas milhares de ONGs, pelos Estados, pelas associações de caridade, pelas ordens religiosas, que se esforçam para estar presentes no país e mantê-lo em pé. O Haiti por si mesmo, devido a tudo o que a sua classe dirigente fez, não é viável. É um problema não resolvido. O terremoto ocorreu numa sociedade que já não conseguia se sustentar sozinha.
Cidade Nova - Então, o senhor não vê saída para o Haiti?
Houve uma grande tragédia, mas também devemos ver as oportunidades que se abrem. A presença maçiça de uma força internacional pode garantir o desenvolvimento de uma democracia. Porque um dos grandes problemas do Haiti sempre foi a fraude eleitoral. Agora, há uma chance de resolver esse problema, pelo menos na capital. Eu não vejo por que agora deva haver um retrocesso.
Cidade Nova - A presença de tropas dos Estados Unidos após o terremoto suscitou polêmica por parte de alguns chefes de Estado. Nesses momentos, surgem discussões sobre quem deveria comandar a ajuda e o processo de reconstrução. Qual é a abordagem mais adequada?
Do meu ponto de vista, não se trata de uma ocupação norte-americana do Haiti. Em todos esses anos, foi pedido que eles interviessem mais. O que não seria aceitável é uma presença exclusiva dos Estados Unidos. Mas a atuação dos estadunidenses é indispensável. É o país que tem a maior capacidade logística e material para fazê-lo. Contando, porém, com o apoio dos países da América Latina, como o Brasil, por exemplo, que de
desempenham um papel importante no Haiti. Os brasileiros intervieram várias vezes como força po-licial de maneira muito importante nos últimos anos pós-Aristide. Portanto, devemos, creio eu, reforçar essa atuação. O Haiti tem uma identidade e uma enorme importância histórica. Mas você não pode deixar os haitianos morrerem de fome com a sua importância. Deve-se ajudar o país a se tornar autossu-ficiente. Deve haver uma coordenação das Nações Unidas e também uma presença europeia. Essa inter-venção pode ser realmente um teste para a fraternidade, uma fraternidade vivida não só no sentido de fazer doações, mas também na forma como se organizam os Estados. Seria a primeira vez que teríamos uma ajuda verdadeiramente desinteressada. Mas isso só será possível se houver uma colaboração em nível mundial.
Cidade Nova - O que o senhor pensa sobre o fenômeno de mobilização que se repete cada vez que há um grande cataclismo?
Há muita fraternidade no mundo, muita capacidade de ajudar e de reconhecer o nosso semelhante, o nosso irmão naqueles que sofrem. Esta fraternidade já estava em ação no Haiti, graças a ela o país se-guia em frente. Este é o primeiro ponto a esclarecer: em grandes acontecimentos a fraternidade se torna mais evidente, mas existe também uma fraternidade constante e bem organizada. Porém ela não tem uma boa assessoria de imprensa. Existem, na sociedade, pessoas generosas, projetos de economia solidária, organizações sem fins lucrativos.
São muitas as pessoas que estão no Haiti como voluntárias ou como religiosas nas últimas décadas. Foram essas pessoas que levaram adiante o país. Foram elas, não os políticos. Mas também as instituições podem ter uma capacidade de se estruturar fraternalmente. Basta que se aproximem das necessidades da população e que não façam do auxílio um meio para man-tê-la serva, mas para emancipá-la.
Cidade Nova - Neste momento, o que pode ser feito concretamente pelo Haiti?
Gostaria de enfatizar a ideia de potencializar as escolas de formação social e política, encontrar uma maneira de retomar e ampliar o projeto que era apenas uma escola em Porto Príncipe. O apoio à formação de pessoas em escolas desse tipo é um aspecto em que não se pensa muito.
Cidade Nova - É um investimento para o futuro, então?
Sim e deve ser feito especialmente por quem acredita na fraternidade. Quem deve fazê-lo, senão nós que temos com a fraternidade - e, portanto, com o Haiti - uma relação privilegiada?
Cidade Nova - Como poderíamos começar?
Por exemplo, com os jovens que querem retornar ao Haiti, ajudando-os a realizarem o desejo de de-senvolver a universidade. A universidade precisa não só de dinheiro. Talvez ela precise também de cooperação, que pode vir inclusive dos países mais próximos. Tudo isso deve ser bem estudado. Não estou dizendo que pode ser feito de imediato, mas que é um aspecto do qual não devemos esquecer.
Cidade Nova - Qual a principal mensagem que a história do Haiti pode dar ao mundo?
Temos que ajudar o Haiti, esta é a mensagem fundamental. Mas não podemos nos esquecer que o Haiti nos doou a fraternidade, ajudou- -nos a entendê-la. Antes do Haiti não existia a ideia de universa-lidade da fraternidade. O país continua a ser uma referência, mudou a história. Toussaint L'Overture construiu a nação durante a Revolução Haitiana com base na fraternidade, porque os 450 mil escravos rebelados não pertenciam à mesma etnia, não falavam a mesma língua. Para unir todas essas pessoas, ele clamou pela fraternidade.
Tentou realmente tornar universais os princípios da Revolução Francesa. Portanto, ressaltemos aquilo que o Haiti pode dar. Os haitianos proclamaram a primeira república negra da história, mostraram que os negros podiam se autogovernar. Ninguém acreditava nisso. O país foi ponto de referência para toda a América. Reconheçamos sua grandeza histórica.
" O Haiti tem uma identidade e uma enorme importância histórica. Mas você não pode deixar os hai-tianos morrerem de fome com a sua importância. Deve-se ajudar o país a se tornar autossuficiente"