Inteiros e livres
Por: Ricardo Pinto
Padre, eu sei que o senhor tem muitas coisas para fazer, mas quando tiver tempo poderia visitar meu filho de cinco anos que está internado?". "Vamos agora", foi a resposta. Durante o trajeto até o hospital, o padre escutou o relato sobre as alegrias e as dificuldades da vida familiar daquela senhora, até então, pouco conhecida por ele. Depois daquele dia, ele continuou acompanhando pessoalmente o caso, telefonando aos pais e convidando outras pessoas a rezar por aquela situação. Os pais sentiram-se acolhi-dos, amados e fortalecidos.
Esse fato, aparentemente comum, traz em si uma explicitação do que seria o "sacerdote elementar", expressão muito presente no 13º Encontro Nacional de Presbíteros (ENP), em fevereiro último. O que se pretende definir com o adjetivo "elementar" nada mais é do que o padre como homem "teologica-mente perspicaz, bem-informado, inteiro, livre e que reconhece os sinais dos tempos, o seu lugar social e a sua missão", como estava escrito na Carta Final do Encontro.
As diversidades de perfis e de experiências eclesiais dos mais de 500 padres e bispos que participaram do Encontro em Itaici eram enormes. Afinal, aquele grupo representava os 20 mil padres que for-mam o clero brasileiro. Muitos desses precisam viajar várias horas de barco para encontrar a comunida-de mais próxima ou vivem imersos na complexidade das sofridas periferias dos grandes centros urbanos ou, ainda, se ocupam com a formação nos seminários. Diferentes contextos nos quais os sacerdotes dão testemunho de fidelidade à vocação, de comunhão fraterna e de doação e trabalho pelo bem das comunidades.
O texto preparatório do Encontro definiu que "a espiritualidade sacerdotal tem raízes com asas" e orientava para a necessidade de maior profundidade e fecundidade espiritual na ação pastoral. O encontro foi uma prova de que isso já é uma realidade na vida de muitos padres.
Com o tema "Celebrando e fortalecendo a comunhão presbiteral", os sacerdotes refizeram as etapas principais dos 25 anos dos ENPs que surgiram como um espaço para a comunhão sobre as dificuldades e as esperanças vividas pelos sacerdotes no Brasil.
Em uma das reflexões do retiro, o cardeal de São Paulo, dom Odilo Scherer, destacou que o sacerdote deve impregnar-se da Palavra de Deus para anunciá-la aos outros. Segundo ele, a Igreja pede que toda a ação pastoral seja bíblica, quer dizer, seja ricamente motivada e orientada a partir desse centro. E as atitudes do padre precisam ter linguagem eficaz de anúncio às comunidades, encontrando sempre novas formas de acesso e experiências a partir da Palavra.
Voltando à família do menino que estava internado, cabe dizer que ele melhorou e os familiares dis-seram que, da maneira como foram tratados, tinham reencontrado a fisionomia de um padre como ser humano, homem de Deus e pastor. Isso, com efeito, é mais do que personalizar relacionamentos. Significa valorizar o sentido do "ser pastor" antes de "fazer pastoral".
A Carta Final do ENP reforçou esse conceito quando afirma que o sacerdote deve procurar o que é essencial para a missão, a busca de coragem para o profetismo e um real despojamento de tudo o que é supérfluo e que se foi agregando na vivência do ministério. Tudo a ver com o lema "Eu me consagro por eles" (Jo 17,19a) que serviu de base para a experiência de comunhão vivida no ENP e para o desejo de testemunhar essa comunhão a todos. Tudo a ver também com a proposta do Ano Sacerdotal que está em andamento.
* O autor é sacerdote, especialista em Teologia Moral e Espiritualidade
"o sacerdote deve procurar o que é essencial para a missão, a busca de coragem para o profetismo e um real despojamento de tudo o que é supérfluo e que se foi agregando na vivência do ministério"