Em nome da fraternidade universal
Por: Saad Zogheib Sobrinho
Os alarmes tocavam diversas vezes ao dia. Chiara Lubich corria para os refúgios anti-aéreos com as suas amigas a fim de se protegerem das bombas. Não podiam levar nada além de um pequeno Evange-lho. Chegando lá, à luz de uma vela, liam as palavras de Jesus. Tocava-lhes, particularmente, aquelas que falavam do amor. Certo dia, leram no Evangelho de João a oração que Jesus fez ao Pai e que ficou conhecida como o seu testamento: "Pai que todos sejam um como eu e tu somos um". Sentiram que Deus as convidava a doarem suas vidas pela concretização desse pedido de Jesus. Começaram a realizar isso entre elas, procurando ser um "só coração e uma só alma" e levando essa unidade a todas as pesso-as com as quais se encontravam.
Essa experiência difundiu-se rapidamente como um unguento que curava feridas atuais e seculares. Teve início uma longa história de experiências concretas de reconciliação, cuja base era procurar sempre aquilo que era positivo no outro, nos outros.
Profundamente enraizada na fé católica, Chiara, com visão profética, colheu o dinamismo sem fron-teiras do apelo de Jesus: "Ama o teu próximo como a ti mesmo". De fato, ela compreendeu que o amor pedido por Jesus deveria ser estendido a todos sem distinção de condição social, raça, Igreja, religião ou cultura. E foram muitas as pessoas que, tocadas por essa compreensão inédita das palavras de Jesus, se sentiram amadas e envolvidas em uma corrente de encontro e de diálogo. Cristãos de diversas Igrejas, fiéis de outras religiões e pessoas sem um referencial religioso redescobriram--se irmãos e parceiros na construção da fraternidade universal.
Toda essa experiência e outras nessa direção precederam o Concílio Vaticano II.
Sinal dos tempos
Quando convocou o Concílio, o papa João XXIII sentia que a Igreja devia construir pontes de diálogo com as principais experiências religiosas em todo o mundo, cristão e não, intuindo que elementos comuns atuados, no respeito das identidades específicas, poderiam dar uma alma nova à toda a humani-dade. São muito conhecidas as palavras do "papa bom": "Procurar, antes de tudo, aquilo que nos une". O papa tinha a certeza de que, ao longo do caminho, seria possível dialogar serenamente sobre aquilo que, por tantos séculos, foi fonte de rupturas.
Diálogo inter-religioso
Quando recebeu o Prêmio Templeton, conferido em Londres a pessoas que se destacam no trabalho pelo progresso das religiões, Chiara comunicou a sua experiência espiritual e cristã a uma assembleia formada por lideranças e fiéis de todas as grandes religiões do mundo. Diversas personalidades religio-sas presentes - muçulmanas, hindus, budistas e judaicas - impressionadas com a universalidade de sua visão de Deus como amor quiseram conhecer pessoalmente Chiara. A partir daquele momento, a fun-dadora dos Focolares recebeu diversos convites para falar a grupos maiores de membros de outras religiões.
O seu primeiro encontro com o mundo budista deu-se em Tóquio com o movimento budista Risho Kossei-kai. Embora tendo narrado a sua experiência cristã, as pessoas presentes ficaram profundamente tocadas com a sua mensagem. Esse contato foi tão profícuo que em todos os lugares do mundo nos quais os budistas desse movimento estão presentes, existe uma relação de amizade e colaboração entre eles e os membros do Movimento dos Focolares.
Depois de um jovem budista tailandês ter frequentado a escola de formação de focolarinos em Lop-piano, centro internacional do Movimento, nas proximidades de Florença, abriu-se um grande diálogo com os monges budistas da Tailândia, onde Chiara foi recebida pelas máximas autoridades do budismo tailandês. Por ocasião de sua viagem a esse país em 1997, Chiara comunicou sua experiência a diversos grupos de monges e de leigos budistas. Para aprofundar a sua mensagem de fraternidade e, depois, transmiti-la ao mundo budista, um monge tailandês decidiu passar um ano em Loppiano. Com o tempo, abriram-se novos contatos com outros grupos de budistas.
Com os mulçumanos
Depois de ter conhecido pessoalmente Chiara num encontro inter-religioso em Roma, W. D. Mohammed, máxima autoridade dos muçulmanos afro-americanos dos Estados Unidos, tomou uma iniciativa corajosa: convidou-a para falar na mesquita de Harlem, liderada por ele. Foi um fato histórico: pela primeira vez na história daquele grupo uma mulher havia sido convidada a falar. E ainda mais: tratava-se de uma mulher cristã e branca.
Com firmeza e delicadeza, Chiara apresentou a sua experiência cristã e de unidade, citando frases do Alcorão, livro sagrado do Islã. A acolhida foi extraordinária. O encontro na mesquita Malcolm X foi o início de uma série de iniciativas e encontros conjuntos entre muçulmanos norte-americanos e cristãos.
Com os judeus
Nas exéquias de Chiara, na Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, um dos testemunhos que chamou mais a atenção foi o de Lisa Palmieri-Billig, uma importante dirigente da comunidade judaica de Roma. Na ocasião, ela disse que tinha encontrado na mensagem de Chiara muitos pontos es-senciais de convergência com a tradição e a espiritualidade judaicas. Com Palmieri-Billig e com outros dirigentes da comunidade judaica de Roma, Chiara estabeleceu uma relação pessoal e fecunda de amizade e de colaboração.
Em 1998, quando Chiara esteve em Buenos Aires para receber o doutorado honoris causa pela Uni-versidade Federal, foi convidada a falar para a comunidade judaica da cidade.
No seu discurso, Chiara ressaltou o dom que o povo judeu foi para a humanidade e a grandeza de sua tradição religiosa e comunicou a sua experiência de vida cristã, apresentando o Mandamento Novo de Jesus "Amai-vos uns aos outros como eu vos amei", como chave da fraternidade entre todos os homens. De forma original e profunda, fez alusão ao grito de abandono de Jesus na cruz "Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste", como a identificação do Filho de Deus com o sofrimento do povo judeu du-rante o Holocausto.
Com os hindus
Nos anos 2001 e 2003, Chiara esteve na Índia a convite de grandes expoentes do hinduísmo, encontrando uma acolhida extraordinária e, ao mesmo tempo, inesperada pela complexidade do mundo hindu-ísta que afunda suas raízes milenares em expressões religiosas muito diversificadas.
Nas suas visitas à Índia, Chiara manteve contato com algumas personalidades e fundadores de mo-vimentos hindus com os quais nasceu um intenso diálogo e colaboração em iniciativas culturais e soci-ais. Com essas pessoas, Chiara manteve, até a sua morte em 2008, uma viva relação de amizade.
Em 2004, realizou-se o segundo simpósio hindu-cristão no Centro Internacional de Formação do Movimento dos Focolares, em Castelgandolfo, na Itália. Chiara esteve presente e encontrou-se com os líderes hindus que havia conhecido nas suas viagens à Índia. Estavam presentes outras grandes personalidades do hinduísmo. Naquela ocasião, Chiara falou de sua experiência espiritual e, de modo particular, do período de iluminações particulares que ela teve sobre a vida da Trindade e sobre as realidades da fé e que ficou conhecido como "Paraíso de 1949".
Embora falando de uma experiência enraízada na espiritualidade cristã, as palavras de Chiara foram acolhidas de forma extraordinária pelos hindus, que viam em sua mensagem muita consonância com os pontos centrais da religião hindu.
Uma família
Pouco tempo antes de Chiara morrer, alguém lhe perguntou o que ela teria a dizer para os membros do Movimento dos Focolares. Com as poucas forças que lhe restavam, ela recomendou que "sejam sempre uma família". Quem conheceu Chiara de perto sabia que, dizendo essas palavras, ela certamente dirigia o seu olhar e o seu coração a toda a humanidade, a exemplo de Jesus quando pediu ao Pai "que todos sejam um".
Durante o período em que esteve doente, centenas de pessoas foram visitá-la em sua casa. Além de estarem ali para agradecer pelo seu amor pessoal, queriam comprometer-se em viver, segundo seu o exemplo, para a construção da unidade da família humana. Entre essas pessoas, estavam fiéis de diversas religiões, além de pessoas sem um referencial religioso. Era uma pequena demonstração de que o amor pedido por Jesus, "ama o teu próximo como a ti mesmo", pode nos tornar irmãos, para além de todas as diferenças entre nós.
Motivos e efeitos do diálogo inter-religioso
Quando o mundo se torna pequeno e povos tão diferentes se encontram, os conflitos aparecem. Al-guns analistas falam em "choque de civilizações", e antigos e novos preconceitos se evidenciam, por vezes assumindo formas de fundamentalismo e de violência. Nesse contexto, o diálogo inter-religioso aponta um caminho não apenas de superação dessas tensões, mas de concórdia e de paz.
Mas, quais são as exigências desse diálogo? Que armadilhas ele esconde? Em "A Unidade, desejo de Deus" (Cidade Nova, 2009), dom Michal Fitzgerald, ex-presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, da Santa Sé, com grande lucidez faz um balanço dos 40 anos desse diálogo, apontando seus resultados positivos e também suas decepções e impasses. E insiste em sua indispensabilidade e nas indispensáveis condições para que seja fecundo.
O livro pode ser encontrado nos pontos de distribuição anunciados na página 46 da revista, através do site de Cidade Nova (www.cidadenova.org.br) ou na sede da própria Editora, através do telefone (11) 4158 2252, ramal 205.