Onde vivem os mortos
Por: Emanuel Bomfim
Título Original: Where the Wild Things Are
Direção: Spike Jonze
Ano/Produção: EUA/2009
Elenco: Catherine Keener, Max Records
Isolado no próprio iglu, em frente à sua casa, Max procura quem atormentar. Precisa de atenção. Os amigos de sua irmã serão o alvo. Rapidamente, o menino de oito anos se arma de bolas de neve e passa a atacar aqueles adolescentes. A brincadeira funciona. Todos estão efusivos, alegres. Mas o que era bom acaba rápido. Numa breve perseguição, os dois rapazes derrubam a casa construída na neve por Max. Aí vem o choro, a raiva e, por fim, o isolamento.
A primeira sequência do filme de Spike Jonze é emblemática: "Onde Vivem os Monstros" não adotará uma abordagem graciosa (às vezes, até meiga) como fazem as produções infantis atuais. Estamos no terreno da melancolia.
Vestindo uma curiosa fantasia de lobo, o solitário Max, já recuperado, corre pela casa e faz gracejos para sua mãe. Não demora muito para arranjar confusão: o garoto ataca sua mãe e, aflito, foge para a floresta. De lá, embarca numa jangada e viaja até uma ilha desconhecida, onde vivem seres estranhos, grandes e amedrontadores.
É na infância que convivemos mais com a ficção, não é? Esta em particular, foi adaptada do premiado livro de Maurice Sendak, lançado em 1963. A obra tem cerca de 20 páginas e umas 10 frases. No filme, este fiapo de trama ganhou quase duas horas. Spike Jonze investe nas personalidades dos mons-tros, representações das emoções e conflitos de Max, para aprofundar sua versão da história.
As cenas são de tirar o fôlego, assim como a trilha certeira de Karen O., vocalista do Yeah Yeah Yeahs. Todo este rebuscamento estético, proporcionado por Jonze, embora repleto de significados, esbarra em uma nar-rativa pouco envolvente. É um filme sobre a transgressão, o crescimento e o senso de responsabilidade. A infância também é um mar de tédio, dor e melancolia. Como rei da ilha dos monstros, Max terá de lidar com toda a instabilidade de quem o rodeia. Ele está pronto? Ou seria "só" um pesadelo?
Não é um filme para crianças, mas um filme sobre a infância. Todos podem ver, é claro. Mas não es-pere apenas divertimento.