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Crianças contam suas histórias e mostram o lugar onde vivem pela fotografia

Projeto criado por educadora de Niterói (RJ) valoriza o olhar infantil para o cotidiano e estimula a contação de história a partir de recursos imagéticos

por Érika Francisco de Paulo David - Porvir*   publicado às 15:24 de 22/12/2017, modificado às 15:29 de 22/12/2017

Entendemos que a fotografia tem o papel fundamental de servir como suporte para as narrativas orais dos alunos, que se utilizam deste recurso para contar e dividir com o grupo as suas trajetórias, e, por conseguinte, a história do bairro onde moram. Pensando nisso, desenvolvemos um trabalho com 18 crianças (de 3 a 4 anos) da Unidade Municipal de Educação Infantil Professora Áurea Trindade Pimentel de Menezes, em Niterói (RJ).

Participante do projeto registra sua visão do cotidiano. Foto: Arquivo Pessoal

Esta iniciativa teve por objetivo promover dentro do ambiente escolar a utilização da prática da fotografia como mais uma forma das crianças contarem a sua própria história a partir de recursos imagéticos e da oralidade. Desta forma, as crianças se reconhecem dentro de uma realidade compartilhada com seus colegas de turma, construindo um discurso que fala da sua história e desta comunidade, localizada no bairro de Itaipú.

As vozes dos alunos, seus interesses, seus gostos e suas histórias são evidenciados em seu recorte fotográfico, possibilitando o estudo e o conhecimento do olhar dos alunos sobre o seu próprio cotidiano, bem como sua identidade e história.

Usamos imagens produzidas pelos alunos dentro e fora do espaço escolar, mas vale destacar que a turma dividiu uma única câmera fotográfica que ia para a casa do aluno e retornava para a escola para ser utilizada por outro colega de turma.

Como foco do trabalho, podemos destacar o estudo da identidade e da ancestralidade das crianças . As narrativas dos alunos aconteceram ao longo do ano, e adotamos uma dinâmica de apresentação de dois trabalhos por semana.

Os alunos levavam a câmera fotográfica para casa e tinham como tarefa a produção de três imagens: uma fotografia da sua família, uma fotografia da sua casa, uma fotografia do seu animal de estimação. Diante do material coletado ao longo de uma semana (registros de dois alunos) a turma se reunia para fazer a socialização das imagens e suas narrativas que eram escritas e registradas por mim.

Fotografias feitas pelos alunos para o projeto. Foto: Arquivo pessoal

À medida que as crianças traziam seus trabalhos e apresentava os seus registros, as suas histórias e a história do bairro, bem como suas características, começavam a ganhar contornos.

Durante a realização do trabalho, os alunos produziram fotografias dos espaços da escola de que mais gostavam, para posteriormente levarem a câmera fotográfica para casa e produzirem suas fotografias de família, da casa e dos animais de estimação. De posse das imagens, os alunos socializaram com o grupo de referência suas produções ao longo do ano.

Todo o processo contou também com o apoio de livros de literatura infantil que tratavam das temáticas suscitadas pelos alunos. Se considerarmos uma concepção de educação pautada na vivência cotidiana, vista como um processo de vida e não como preparação para uma vida futura, temos uma abordagem que valoriza o tempo presente, a vida presente, assim nosso ponto de partida foi sempre a história e memória dos alunos.

O resultado final do trabalho da turma foi socializado com toda a escola na Festa Literária, que é realizada anualmente na escola. Nesse momento, toda a escola se mobiliza para compartilhar as produções realizadas durante o ano e também entrar em contato com os trabalhos desenvolvidos em outros grupos de referência.

Com a realização deste projeto, pretendemos proporcionar aos alunos amplo contato com diferentes tipos mídias, obras de arte e diferentes expressões artísticas, bem como o uso de diferentes tecnologias. Esperamos que eles se reconheçam como produtores de fotografias e que possam perceber no registro fotográfico uma atividade subjetiva e uma importante forma de contar a própria história e de refletir sobre ela, ultrapassando o uso do registro imagético na atualidade, que se dá de forma tão fragmentada e superficial.

Diante dessa perspectiva, promover um exercício com as imagens pautado em um trabalho de educação do olhar é usar o estudo imagético em toda sua potencialidade, reconhecendo este recurso como forma de mediação da aprendizagem e de construção do conhecimento.

*Texto original no portal Porvir

Tags:

educação, Criança, fotografia