Mendigos de bençãos

Para observar uma existência, o melhor ponto de vista é o último. O sentido pleno e mais verdadeiro de uma vida, na sua totalidade, revela-se no final, quando a vocação se cumpre e o desígnio se manifesta. Assim sendo, para quem tem a graça de lá chegar, a velhice é uma fase decisiva da vida; é então que, à luminosa luz do pôr do sol, se pode colher a trama da nossa história.

Quando a vida natural parece chegar ao fim, poderá acontecer que, no outono da existência, a vida espiritual experimente uma nova primavera, decisiva (existem muitas primaveras nos outonos da vida, mas nem sempre se tem a capacidade de as reconhecer, mesmo em quem vive debaixo do mesmo teto). Recomeça, então, a caminhada, a aventura da alma retoma o entusiasmo da juventude.

Foi assim a vida dos patriarcas, a vida de Jacob: já velho, põe-se de novo a caminho em direção ao Egito, seguindo a mesma voz que, quando era jovem, o tinha chamado em Betel. Após a reconciliação com os irmãos, José envia-os irmãos a Canaã para que tragam para o Egito Jacob e todo o clã familiar, “mesmo que ainda venham mais cinco anos de fome” (45,11). “A cada um deles deu roupas novas”. A Benjamim, como ele filho de Raquel, “deu trezentas moedas de prata e cinco mudas de roupa” (45,22).

A veste real multicolor de mangas compridas que o pai Jacob lhe tinha dado (37,3), estivera no centro do conflito entre o jovem José e seus irmãos. A veste que lhe fora tirada antes de o lançarem na cisterna do deserto (37,23) e entregue ao pai manchada com o sangue de um cabrito degolado (37,31), torna-se agora um dom de José aos irmãos. Todos recebem uma veste nova; onze vestes imaculadas assumem o lugar da vesta manchada pela inveja. Onde um dia abundou a culpa, sobreabunda agora a charis.

"Para observar uma existência, o melhor ponto de vista é o último. O sentido pleno e mais verdadeiro de uma vida, na sua totalidade, revela-se no final, quando a vocação se cumpre e o desígnio se manifesta"

José ainda está vivo” (46,26): comunicam os filhos a Jacob-Israel. Ao contrário deles, Jacob (e talvez também Benjamim e as mulheres) estava convencido de que o sangue da capa era de José, morto por um animal feroz. Tinha vivido muitos anos com esta dor no coração. Perante a notícia da ‘ressurreição’ do filho, ao princípio, Jacob-Israel (“nem reagiu, pois não podia acreditar no que diziam”, 45,26); mas quando o convenceram “ganhou nova vida e então exclamou: “Basta-me que o meu filho esteja ainda vivo. Quero ir vê-lo antes de morrer!” (45,28). 

Deseja ir, mas antes de partir precisa de realizar algo importante: “Jacob pôs-se a caminho do Egito com tudo o que era seu. Chegou a Bercheba e ofereceu sacrifícios ao Deus de Isaac, seu pai” (46,1). Deixa Hebron, a terra da prometida, e dirige-se à casa onde tinham vivido como imigrantes seu pai Isaac e sua mãe Rebeca, no mesmo deserto de Bercheba para onde tinha fugido Agar, a escrava mãe de Ismael. Fora ali que, durante um período de muita fome, Isaac tinha encontrado o YHWH num momento decisivo da sua vida. Falara-lhe, anunciara a promessa, e dissera-lhe: “Não vás para o Egito, mas fica na terra que eu te indicar” (26,2). Agora, por causa de outro período de fome, ao contrário de seu pai, Jacob está para deixar a terra de Canaã, precisamente em direção ao Egito que o Senhor tinha vedado a Isaac. O Egito fora negado a seu pai porque era outra a terra prometida pelo YHWH: a terra de Canaã, que Jacob habitava agora. A primeira voz que tinha falado a Isaac, prometendo-lhe uma terra que não era o Egito, não podia ter a mesma força da voz do seu coração de pai que deseja voltar a ver um filho que durante décadas pensou estar morto.

No humanismo bíblico as vozes não são todas iguais; e a salvação está em identificar e seguir a voz mais verdadeira; não será a mais cômoda nem a dos falsos profetas ou dos deuses de madeira, nem mesmo a simples voz do coração. Aqui temos, pois, Jacob que regressa à terra de Isaac – no mundo da Bíblia também os lugares têm vocação – para compreender, para rezar, para escutar, para discernir as vozes, para escolher. E também desta vez “Deus apareceu-lhe durante a noite e chamou por ele: ‘Jacob! Jacob!. Ele respondeu: ‘Estou aqui’. Deus acrescentou: ‘Eu sou o Deus do teu pai. Não tenhas medo em ir para o Egito … José é que há de fechar-te os olhos, quando morreres” (46,2-4). Só então Jacob sabe que a voz que fala e o chama duas vezes (que o re-clama: “Jacob, Jacob”) é a voz do Deus de seu pai, a voz do YHWH; e se é a mesma voz que tinha negado o Egito a Isaac que agora o manda ir para lá, então já pode, deve mesmo partir.

Para de novo ouvir a voz e compreender, Jacob não foi a Betel, o lugar onde tinha recebido a sua primeira vocação, onde tinha visto os anjos, o paraíso (28,13-22). Mas volta à terra dos seus pais, quer escutar novamente o mesmo Deus de Isaac, no lugar do pai, da mãe. Pretende ouvir de novo chamar pelo nome a mesma voz verdadeira, a voz que nunca o enganou, a voz da Aliança e da promessa.

"A terra prometida não é um território a ocupar: é seguir uma voz. Então, todas as terras, mesmo a terra prometida, é terra estrangeira, porque a terra é dom, habita-se provisoriamente, não se possui"

É frequente – e para quem se esforça por viver na verdade é mesmo muito frequente – que antes de uma escolha, de uma decisão importante, se regresse aos ‘pais’, à terra deles, aos seus lugares; principalmente quando se está para fazer uma escolha que vai na direção oposta à que constituía a primeira aliança, a promessa, a vocação. Volta-se à casa mãe à procura de sinais, esperando ouvir de novo uma voz mais profunda, em busca de certezas mais verdadeiras, para reencontrar o sentido da vida, da vocação, da promessa. Para de novo ouvir chamar o nosso nome.

A empresa familiar atravessava um longo período de dificuldade. Chegou a proposta de uma multinacional para a comprar por um valor alto. "Deverei eu vender a empresa fundada pelo avô, que foi a vida dos meus pais, a grande história da família, a mais bela história que nos contamos? Deverei ser eu a escrever a última palavra desta história?". Está chegando a data limite, as noites estão tornando-se difíceis e compridas. Luís sente-se impelido a entrar no primeiro barracão, já sem uso, mas onde estão ainda vivos e verdadeiros inteiros fragmentos de história, de relacionamentos, palavras, sofrimentos; coração e carne. Foi naquele armazém que o pai lhe ensinou o ofício. Dalí segue até à velha casa de aldeia do avô onde, na sua oficina, tinha aprendido a trabalhar a madeira; tinha ouvido contar os gloriosos primeiros tempos da fundação da empresa, depois do regresso da América; os tempos da guerra, a carestia, a fome, a ida para a frente da guerra, as mortes tremendas e sempre vivas dos filhos.

E naquele silêncio "habitado" procura captar as antigas vozes; tenta identificar a voz da juventude, quando tudo era claro e transparente, a voz que o levou a renunciar a um lugar seguro para continuar aquela história. Para compreender se a voz que agora parece dizer "vende" é a mesma voz boa que um dia lhe disse "fica". São autênticas peregrinações, nas quais, inconscientemente talvez, se procura a bênção dos pais para as difíceis escolhas de hoje. Será necessário fazer mais alguma coisa, não devemos deixar de mendigar bênçãos, sobretudo quando as vozes boas já não nos falam nas nossas casas, quando há que reformar pactos sociais, nos sete anos de vacas magras (2008-2015).

Na casa dos pais, Jacob voltou a ouvir a mesma voz, entendeu que deveria partir, e partiu. Será no Egito e não na terra de Canaã que irá fechar os olhos. Já velho – “Vivo neste mundo há cento e trinta anos”, dirá ao Faraó (47,9) – foi chamado a deixar a terra da promessa, a pôr-se novamente a caminho para uma terra estranha (47,4) e a lá morrer, exilado. Aquele "sim" da velhice foi o decisivo; não menos decisivo que o primeiro, pois foi a realização plena da sua vocação.

Era preciso chegar ao termo da história de Jacob para termos aberto diante de nós um dos tesouros mais preciosos de toda a Bíblia: a terra prometida não é um território a ocupar: é seguir uma voz. Então, todas as terras, mesmo a terra prometida, é terra estrangeira, porque a terra é dom, habita-se provisoriamente, não se possui. Todo o homem que segue uma "voz" é estrangeiro na terra inteira e por toda a vida. A boa casa do humano é a tenda do nômade.

Quando eles chegaram a Góchen, José mandou que preparassem o seu carro para ir lá receber o seu pai, Israel. Quando se apresentou diante do seu pai, abraçou-o e ficou a chorar muito tempo abraçado a ele. Jacob disse a José: ‘Agora já posso morrer, depois de saber que estás vivo e de eu próprio te ter visto’” (46,29-30).

Texto originalmente publicado no jornal italiano Avvenire, em 27/07/2014, e no site da Economia de Comunhão. Tradução: António Bacelar.



Sobre

A gratuidade entendida como dom é uma dimensão constitutiva da vida e do ser humano, também do "homo economicus". Virtudes como gratuidade, liberdade e respeito pela pessoa encontram-se nas origens da economia (séculos 8 e 9). Hoje, reintroduzir a gratuidade na economia significa inverter a lógica do lucro para recolocar no centro os mais pobres, a pessoa e suas motivações, sua dignidade, ideais, sentimentos. Neste blog, Luigino Bruni faz uma leitura da economia atual, à luz dessas reflexões. Na primeira série de textos deste ano, intitulada "A árvore da vida", o autor busca explorar as reflexões econômicas e civis suscitadas pelo patrimônio cultural judaico-cristão.

Autores

Luigino Bruni

Professor de Economia Política da Universidade Lumsa de Roma e do Instituto Universitário Sophia. Seus principais temas de pesquisa são reciprocidade, felicidade na economia, bens relacionais, Economia de Comunhão, Economia Civil e Economia Social.