No capítulo 10 do Evangelho de Mateus, os apóstolos acabam de ser escolhidos por Jesus, que os chama pelo nome, concedendo-lhes poderes especiais para expulsar espíritos impuros e o dom de curar todas as doenças e enfermidades. Jesus lhes dá instruções sobre onde e como eles devem realizar sua primeira missão.
A mensagem que os apóstolos devem proclamar é clara: “O Reino dos Céus está próximo1“. E essa mensagem que lhes é confiada deve ser proclamada “por onde andardes”. Essa orientação ressalta, por um lado, que o verdadeiro discípulo é, antes de tudo, alguém que anuncia a proximidade, mas, por outro lado, também ressalta que o próprio modo de caminhar juntos já deve ser um anúncio. De fato, no Evangelho de João, após confiar aos apóstolos o mandamento novo, Jesus afirma: “Nisso conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns para com os outros2“.
“Por onde andardes, proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. […] De graça recebestes, de graça dai.”
O “Reino dos Céus” é o coração do anúncio de Jesus. A expressão semelhante, “Reino de Deus”, é usada no Antigo Testamento para indicar o senhorio, o governo e a ação salvadora de Deus na história da humanidade. Ele é o soberano do mundo e, especialmente, do povo de Israel, que aguarda um descendente do rei Davi para restabelecer o papel de Israel entre os povos. No Novo Testamento, o próprio Jesus é apresentado como descendente de Davi e, portanto, como rei. O “Reino dos Céus” se diferencia de um reino temporal por ser um reino de paz e justiça, onde os pobres são amparados, onde reinam o perdão e a reconciliação, e que vai trazer vida e luz a todas as nações. Trata-se de um reino que já começou no mundo e nos corações das pessoas, mas que só se realizará plenamente com o retorno de Jesus.
“Por onde andardes, proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. […] De graça recebestes, de graça dai.”
Jesus anuncia que o Reino está “próximo”, no tempo: já está para acontecer. Por meio de parábolas, como a do grão de mostarda ou a do fermento que faz a massa toda crescer, compreendemos que esse Reino atua de maneira misteriosa e humilde, porém persistente, e no decorrer do tempo. Mas essa palavra, “próximo”, também tem um sentido de espaço. Quando os discípulos se aproximam, caminhando como portadores da presença do espírito de Jesus, o Reino de Deus se aproxima. E quando Jesus diz ao escriba, no Evangelho de Marcos: “Tu não estás longe do Reino de Deus3“, Ele provavelmente não quis dizer apenas “Tu começaste a entender”, mas também “Tu não estás longe de mim”.
“Por onde andardes, proclamai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. […] De graça recebestes, de graça dai.”
“De graça” traduz um termo que, no original grego, significa “como doação”. Isso destaca: o que os apóstolos receberam não lhes foi dado por serem merecedores. A fonte é a generosidade de Deus e o fato de terem sido escolhidos para uma missão específica.
Chiara Lubich escreve: “O Reino de Deus, portanto, deve ser recebido. É um dom que Deus faz a você. De fato, não existe nenhum esforço humano, nenhuma tentativa ascética, nenhum estudo ou pesquisa intelectual que lhe permitam entrar no Reino de Deus. É Ele mesmo que vem ao seu encontro, que se revela com a Sua luz ou com o toque da Sua graça. E não existe nenhum mérito que você possa ostentar ou sobre o qual se basear para ter direito a semelhante dom de Deus. O Reino lhe é oferecido gratuitamente4“.
Nessa acolhida, somos chamados, também hoje, a continuar a tarefa confiada por Jesus aos apóstolos: proclamar com a palavra e com os fatos a proximidade do Reino, anunciar juntos, a cada ser humano, uma mensagem de esperança: neste mundo tão conturbado e incerto, Deus ama a cada um imensamente; Deus nos ama a todos imensamente.
Organizado por Augusto Parody Reyes com a comissão da Palavra de Vida
1) Mt 10,7.
2) Jo 13,35.
3) Mc 12,34.
4) LUBICH, Chiara. Como crianças. Palavra de Vida, outubro de 1979.