Pensar na vida daqueles e daquelas que optaram por deixar tudo e viver uma vida de oração e trabalho em um mosteiro, para muitos de nós, pode soar como algo ultrapassado, exótico ou desconectado com a realidade. Em A Trapa, livro-reportagem publicado pelo selo Recriar, da Cidade Nova, o autor Dário Ramos contrapõe essa visão ao demonstrar que essa profunda experiência de fé é capaz de dar sentido e sabor para a existência daqueles que a assumem e ser um sinal de esperança e luz para nós que vivemos para além dos muros de um mosteiro. Por meio de um trabalho de pesquisa e entrevistas, o jovem jornalista apresenta a experiência de vida dos monges trapistas no Brasil, cujo únicos mosteiros masculino e feminino estão localizados próximos a Curitiba.
Cidade Nova convidou o autor dessa obra que acaba de ser lançada para falar sobre o tema central do seu trabalho, o processo de produção, entre outros aspectos. O paraense Dário Ramos tem 25 anos, é casado – aguarda o nascimento do seu primeiro filho –, e atualmente mora em Curitiba. Ele é jornalista de formação, mas atualmente trabalha com a Pastoral Educacional em um colégio católico e cursa Teologia. Ramos diz que sempre teve um interesse pelo universo religioso e foi isso que, no final das contas, o levou a descobrir a Trapa – como é chamado o mosteiro trapista – e fazer desse assunto o tema de seu trabalho de conclusão de curso que, agora, ganhou o formato de livro.
Confira a entrevista.
Trapa é o nome que se costuma dar aos mosteiros trapistas, da Ordem Cisterciense de Estrita Observância, uma das ramificações que surgiram com a reforma monacal realizada por São Bento no início do século 9. É uma ordem, portanto, que segue a regra beneditina e que, aqui no Brasil, conta com um único mosteiro masculino, localizado em Campo do Tenente (PR), e outro feminino, situado próximo à capital paranaense. O mosteiro masculino recebe o título de Nossa Senhora do Novo Mundo.
Esse nome tem origem no nome da cidade de Soligny-la-Trappe, na Normandia (França) em que o ordem estabeleceu seu principal mosteiro. Por isso, os monges ficaram conhecidos como trapistas e as monjas, trapistinas.
Eu decidi abordar a vida dos monges desse mosteiro por conta das suas especificidades em termos de vida religiosa e monástica. Para além do fato de pertencer à linha da reforma da regra de São Bento, essa comunidade possui muitas particularidades, sobretudo se confrontarmos com a vida contemporânea que é marcada por uma “cultura do barulho”, pelo excesso de informação e pelo universo digital. É o caso, por exemplo, do fato de que boa parte da vida desses monges se dá no absoluto silêncio. Essa é a única ordem que pratica a oração da vigília às três da manhã. Há, portanto, uma série de características muito próprias dessa ordem que, penso, podem interessar o público não só pela curiosidade, mas também pelo estilo de vida dessa comunidade.
Isso ocorreu no período em que eu estava escrevendo meu trabalho de conclusão de curso de jornalismo. Inicialmente, eu tinha resolvido escrever sobre um tema na área de política. Isso se deu bem durante um período eleitoral. Acabei desistindo desse assunto, porque entendi que não tinha saúde emocional suficiente para lidar com aquilo. Decidi procurar um assunto que me interessava mais. Então, resolvi fazer algo sobre o universo religioso. Mas precisava ser algo atrativo, que tivesse valor de notícia. Não podia ser algo muito comum. Nessa época, fui fazer um retiro na Trapa. Os monges têm uma hospedaria e abrem para acolher pessoas que procuram por um retiro, como ocorre com a maioria dos mosteiros beneditinos. Depois de ter passado quatro dias ali, conclui que era muito interessante aquele estilo de vida para todos nós cristãos católicos. Naquele período, eu conversei muito com o padre Estevão, hoje abade do mosteiro. Além disso, há um monge trapista que ficou bastante conhecido, dom Bernardo Bonowitz, norte-americano já falecido que tornou-se abade no mosteiro em Campo do Tenente. Ele era um pregador e escritor muito famoso e, atraído por ele, acabei conhecendo a Trapa. Enfim, conclui que esse poderia ser um bom tema para um livro-reportagem.
Não chega a ser um voto, mas é mais uma questão disciplinar. Isso é uma das coisas mais curiosas que eu encontrei ali: os monges se comunicam apenas no mais estritamente necessário no dia a dia e as conversas livres, pela regra deles, só ocorrem em dois momentos: na manhã de Páscoa e na noite de Natal. É claro que isso pode ocorrer também em outros momentos festivos, como por exemplo, quando um religioso faz os seus votos ou acontece uma ordenação sacerdotal. O padre Estevão fazia questão de dizer: “mas não é por isso que a gente se ama menos”. Ele queria dizer que a comunidade é fecunda na vida do Evangelho e seus membros encontram outros meios para se conhecerem melhor e se relacionarem. Eles têm um voto diferente, que é o da estabilidade: prometem viver para sempre no mosteiro onde professaram os seus primeiros votos. No entanto, pode ocorrer que, por necessidade da própria ordem, eles precisem ser transferidos. De qualquer modo, a maioria desses religiosos, desde que entram em um certo mosteiro, permanecem ali.
Acho que é exatamente isso. Eles acabam fazendo o essencial. Talvez se trata de pensar antes de falar se aquilo é realmente necessário... No mundo da Internet, isso seria maravilhoso, isto é, se as pessoas tivessem esse discernimento. Eles praticam isso muito bem. O silêncio ajuda muito nesse sentido. Penso que eles consideram o silêncio algo tão precioso que devem sempre fazer o discernimento sobre ser necessário realmente quebrá-lo.
Com certeza! Inclusive esse foi um dos desafios para fazer esse trabalho. Eu queria muito entrevistar os monges. Não bastava ter acesso a certa documentação ou a livros. Inclusive, nesse período, eu tive a oportunidade de ir à Itália e conhecer a abadia de Montecassino e aprender sobre a vida de São Bento, cuja regra é fonte para a Trapa, o que eu apresento em uma parte do livro. Mas eu queria entrevistá-los e isso demandou um processo trabalhoso. Primeiro, eu precisava da autorização do superior da congregação. Depois, precisava encontrar monges que aceitassem conceder entrevista. No final das contas, três deles aceitaram: um já idoso, irmão Miguel, de Angola, um homem muito sábio, que veio para o Brasil fugido da guerra civil no seu país onde o mosteiro trapista teve que ser fechado. Os monges de lá acabaram sendo distribuídos para outros mosteiros ao redor do mundo. Ele tem uma história maravilhosa; um homem de Deus! Depois, entrevistei um jovem monge cujo irmão gêmeo também é trapista, e o padre Estevão, que era sacerdote e, depois, se tornou monge e hoje é o abade. São três histórias bastante diferentes, mas que tratam da mesma vocação. Também tive a oportunidade de entrevistar – por e-mail – a superiora do mosteiro das trapistinas no Brasil. Os trapistas são bastante conhecidos por produzirem cerveja e três dessas monjas estavam fazendo curso superior em Santa Catarina na área de química voltada à produção de cerveja, especificamente de chocolate.
Sim. Eu me embasei principalmente na obra de um monge trapista, que tem tradução em português, e que se chama A vida monástica, o que me ajudou a me preparar para as entrevistas, já que foi importante para entender melhor a vida dos monges. Eu queria partir de uma visão mais aprofundada. Eu também usei documentários, alguns materiais da própria ordem disponíveis na Internet, como a constituição dessa congregação, além de alguns trabalhos acadêmicos. Entre esses, tem uma tese de doutorado em História que trata de forma aprofundada sobre a história do mosteiro em si.
Na primeira parte, eu faço uma introdução sobre a vida monástica, quem são os monges trapistas e qual a sua origem. É uma forma de preparar o leitor para as entrevistas. Depois, constam as entrevistas dos três monges, aquela com a superiora das monjas trapistinas e uma quinta entrevista Gabriel Marquim (fundador da Comunidade dos Viventes) que conta a sua experiência como hóspede da Trapa. Eu também conto um pouco da minha experiência pessoal nesse sentido.
Eu até digo isso na apresentação do livro: eu acredito muito num jornalismo que comunica a vida, que comunica a esperança, que consegue ir além do óbvio e se aprofundar. Claro que, na realidade do dia a dia, isso é sempre um desafio e, muitas vezes, até uma utopia para o jornalista. Mas eu acredito muito nesse jornalismo que, porque comunica vida e esperança, é capaz de ajudar as pessoas a refletirem. Nesse sentido, escrever um livro-reportagem e fazer esse diálogo com a literatura ajuda a pessoas a fazerem uma experiência também emocionalmente positiva. Enfim, eu acredito nesse jornalismo que vai além da notícia, sobretudo da má notícia.
Com certeza! Eu espero que o leitor, além de mergulhar e encontrar inspiração nessa vida tão diferente da nossa que é a dos monges trapistas, por meio da linguagem e o conteúdo, de alguma forma, reavive esperança para a própria vida. Além disso, espero que esse livro desperte a consciência de que é possível viver a vida de uma forma diferente, com sentido, com sabor, porque foi isso que eu encontrei na vida dos monges. Apesar de exótica para nós, é uma existência com muito sentido, com muita alegria, com muito sabor.