Religião / Espiritualidade
  

Em celebração histórica, papa Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

Cerimônia foi concelebrada pelo papa emérito Bento XVI e contou a presença de mais de um milhão de fieis católicos, além de ortodoxos, anglicanos, judeus e muçulmanos

por Victoria Gómez - Città Nuova   publicado às 09:32 de 28/04/2014, modificado às 10:59 de 28/04/2014

O mundo assistiu, no último domingo (27/04), a pelo menos três fenômenos excepcionais: um, a canonização conjunta de dois papas pela Igreja Católica. Dois, o pronunciamento da fórmula solene pelo papa Francisco, acompanhado do papa emérito Bento XVI, que concelebrou; três, a extraordinária mobilização de pessoas de todo o mundo. Fala-se da presença de mais de um milhão de pessoas em Roma, mas quem poderá saber ao certo? E quem poderá dizer o que aconteceu na interioridade de tantos? Certo é que o evento entrará para a história.

Mais de um milhão de fieis estiveram na praça São Pedro para a canonização de João XXIII e João Paulo II. Foto: Santiago Armas/Presidencia de la República del Ecuador

A celebração, iniciada às 10h, teve muitos momentos emocionantes. Entre eles, antes do Introito, o abraço entre Bergoglio e Ratzinger, celebrado com aplausos da multidão. Pouco antes o papa emérito fora abraçado pelo presidente italiano Giorgio Napolitano, muito estimado por ele.

Em seguida, uma espécie de tremor percorreu a praça de São Pedro, quando o Cardeal Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, acompanhado pelos respectivos postuladores, solicitou a inserção dos nomes de João XXIII e João Paulo II no Livro dos Santos. E depois da oração do Veni Creator, com a qual invoucou-se o Espírito Santo, o papa Francisco pronunciou, com um pathos dificilmente repetível, a fórmula solene de canonização. Algumas de suas expressões pareciam apenas sussurradas, outras, mais acentuadas: “Para o incremento da vida cristã”, “com a autoridade do nosso Senhor Jesus Cristo”, “após longa reflexão”, “depois de escutar os conselhos de muitos irmãos no episcopado”, “declaramos e definimos Santos os Beatos João XXIII e João Paulo II”.

As palavras da liturgia pareciam narrar o sentimento e a emoção que o papa Francisco, in primis, mal conseguia conter. Em sua homilia, definiu São João XXIII como “o papa da docilidade ao Espírito Santo”, e João Paulo II como “o papa da família”. A liturgia do dia, intitulado “Domingo da Divina Misericórdia” por João Paulo II, falava sobre as chagas gloriosas do Jesus ressuscitado e o relacionamento dele com Tomé, um “homem sincero”, "acostumado a verificar pessoalmente”, que, depois de ter duvidado, ajoelhou-se diante de Jesus e disse: “Meu Senhor e meu Deus”.

Bergoglio falou dessas feridas, “escândalo”, mas também da “verificação” da fé . São João XXIII e São João Paulo II tiveram a coragem de contemplar as feridas de Jesus, tocar as suas mãos chagadas e o seu lado trespassado. Não tiveram vergonha da carne de Cristo, não se escandalizaram d’Ele, da sua cruz; não tiveram vergonha da carne do irmão, porque em cada pessoa atribulada viam Jesus”.

Papa Francisco os definiu como “dois homens corajosos”,  “sacerdotes, bispos e papas do século XX”, que “conheceram as suas tragédias, mas não foram vencidos por elas”. Neles havia habitava “uma esperança viva, juntamente com uma alegria indescritível e radiante. A esperança e a alegria que Cristo ressuscitado dá aos seus discípulos, e de que nada e ninguém os pode privar. A esperança e a alegria pascais, passadas pelo crisol do despojamento, do aniquilamento, da proximidade aos pecadores levada até ao extremo, até à náusea pela amargura daquele cálice. [...] Esta esperança e esta alegria respiravam-se na primeira comunidade dos crentes, em Jerusalém […], onde se vive o essencial do Evangelho, isto é, o amor, a misericórdia, com simplicidade e fraternidade”.

O pontífice concluiu com um augúrio: que os novos santos do Povo de Deus “intercedam pela Igreja” e nos ensinem “a não nos escandalizarmos das chagas de Cristo, a penetrarmos no mistério da misericórdia divina que sempre espera, sempre perdoa, porque sempre ama”.

A Igreja deste domingo parecia em festa e consciente. O ritual solene e sóbrio, com o papa, mais de 150 cardeais, mil bispos e seis mil sacerdotes e o povo. Pessoas de todos os lugares que amontoavam-se nas ruas ao redor da praça de São Pedro, desde as primeiras horas da manhã; muitos, é claro, os poloneses e bergamaschi (de Bérgamo, região originária de João XXIII). Mas não havia apenas católicos. Também quiseram estar presentes ortodoxos e anglicanos, além de judeus e muçulmanos.

Também participaram delegações oficiais de mais de 100 países, mais de vinte chefes de Estado, primeiros-ministros e numerosas personalidades do mundo da política e da cultura , incluindo os reis da Espanha e da Bélgica, o príncipe de Liechtenstein e o Grão-Duque do Luxemburgo, os presidentes do Parlamento argentino, da União Europeia, e da Comissão Europeia.

Com todos também rezaram as duas protagonistas dos milagres atribuídos a João Paulo II, Irmã Adele LaBianca e Floribeth Mora Díaz. Grandes retratos dos dois papas, os mesmos expostos em sua beatificação, adornavam o portal da Basílica desde o dia anterior. Pareciam acolher os muitos peregrinos que chegavam pouco a pouco a uma praça de São Pedro decorada com mais de 30 mil rosas vindas do Equador, neste inesquecível 27 de abril de 2014.