Centenário de Ginetta Calliari

SANTIDADE Cofundadora do Movimento dos Focolares foi exemplo de retidão de caráter, atuação concreta no combate à pobreza e coerência com valores de fraternidade

por Sandra Ribeiro   publicado às 00:00 de 24/10/2018, modificado às 15:57 de 24/10/2018

15 de outubro de 2018. Há cem anos nascia Ginetta Calliari, cofundadora, com Chiara Lubich, do Movimento dos Focolares no Brasil e, atualmente, em processo de beatificação – ao fim do qual a Igreja Católica pode considerá-la beata.

Um dia uma jornalista me perguntou, num modo de dizer bem popular: “Quando foi que Ginetta virou santa?”. Na verdade, ninguém “vira” santo, como se fosse algo mágico que acontece da noite para o dia. Santidade é um processo, um caminho feito de opções, de ati­tudes e ações que “fazem a diferença” no panorama das relações sociais. Em todas as épocas, é forte a tentação de que essas relações sejam marcadas por ideologias individualistas e, portanto, utilitaristas.

Santificar-se poderia ser traduzido como tomar atitudes de fraternidade, honestidade e coerência entre o que se crê certo e justo e o que se faz, sem enrubescer. Ser santo é ser autêntico, ter uma personalidade íntegra, não dividida, não ter o pé em duas canoas, como bem diz o ditado popular. Ou ainda: é chegar ao pleno desenvolvimento do melhor que existe em nós. No cristianismo, existe uma fórmula para expressar essa condição: “Atingir a plena estatura de Cristo” (Cf. Ef 4,13).

Mas só se pode falar de santidade dentro do cristianismo? Muitos se perguntam por que a Igreja não declara santas pessoas como Mahatma Gandhi, Martin Luther King e tantos outros que representaram e viveram por grandes ideais humanitários. A Igreja é também uma instituição e pode se pronunciar oficialmente sobre a santidade somente de seus membros. Mas é obvio que a santidade pode existir em todo lugar. Ela, em definitiva, se mede pela atenção, dedicação e amor concreto que se tem ao próximo. O próprio Jesus a declarou presente entre aqueles que não o conheceram nesta terra (Cf. Mt 25,38-40).

Nesse sentido, existem muitos santos anônimos, pessoas que talvez não serão declaradas ou reconhecidas publicamente como tais por ninguém, mas que, de fato, plantam continuamente onde estão aquelas sementes de bem, destinadas a frutificar em proveito de muitos. No parecer da Igreja Católica, Ginetta Calliari talvez possa ser considerada uma pessoa assim. Digo talvez, pois a sua vida está em processo de estudo.

Qual a utilidade desses processos de beatificação e canonização (este último pode levar a pessoa a ser considerada santa pela Igreja Católica)? E o que haveria de especial na vida de Ginetta para justificar um processo desse tipo? Acho que esses processos são importantes, porque, no contexto das conquistas e fracassos da modernidade e da chamada pós-modernidade, o ser humano atravessa um túnel escuro, onde prevalece mais a liquidez da dúvida do que a solidez das certezas. Sente-se a exigência de faróis, de bússolas que indiquem um rumo a tomar e que, sobretudo, mostrem que existe sempre a possibilidade de um novo começo, de se reencontrar o fio da meada de uma convivência mais humana, livre das tipologias de relações sociais em que “o homem é lobo do homem”.   

Ao ler a história de Ginetta ou ao lembrarmos de como ela vivia e do que falava e ensinava, vem em relevo a personalidade de alguém que fez uma opção na vida e que foi coerente com essa escolha. A opção feita por Ginetta era o ideal da unidade proposto por Chiara Lubich, com a qual iniciou uma divina aventura e que levou ao surgimento do Movimento dos Focolares. Como chave de realização dessa unidade, está o amor ao “Crucifixo vivo”, Jesus na cruz, Abandonado pelo Pai, momento que sintetiza em si todos os abandonos e mazelas pelas quais o ser humano pode passar.

Centenário de Ginetta Calliari

Ginetta sempre foi sensível ao problema social. Na chegada ao Brasil, deparou-se com uma situação de pobreza estrutural e isso a surpreendeu profundamente. Era o semblante do Crucifixo vivo! “Eu pensava – ela dizia ao ver crianças e adultos deitados nas calçadas – que toda criança deveria ter um berço, os velhinhos uma cama…”. E chegou à conclusão de que a solução mais radical para esse grande problema era a formação de “homens novos”, ou seja, pessoas imbuídas da mentalidade de amor sem medidas, ensinada por Jesus no Evangelho. Só assim seria possível construir uma sociedade nova, marcada pela fraternidade.

Assim, paralelamente a muitos projetos sociais do Movimento que ela iniciou ou encorajou, a sua ação era voltada para a formação de crianças, adolescentes, jovens, famílias, a esse ideal evangélico da unidade, da fraternidade.

Na década de 1970, quando muitos achavam sua opção utópica e alienada, Ginetta teve a iniciativa de recolher em três livros histórias de pessoas de todas as classes sociais que tiveram a vida transformada pela atuação do Evangelho. Ela dizia: “Diante de fatos vividos, todo mundo dobra a cabeça, se não é hoje é amanhã”. Os livros foram publicados com os títulos: O Evangelho, força dos pobres, O Evangelho no dia a dia e Quando o Evangelho entra na família. O primeiro foi adotado como livro de texto em uma faculdade e em escolas do ensino médio. Os dois primeiros chegaram a ser traduzidos para outros idiomas.

Além de muitos outros aspectos que poderiam ser citados, na vida de Ginetta encontramos também uma grande sensibilidade àquilo que se poderia chamar de “virtudes sociais”. Hoje, em uma sociedade sempre mais sensível a questões ecológicas, diante da emergência ambiental que vivemos, o exemplo de Ginetta se revela atual­: em suas poucas excursões para descanso na praia, ela recolhia – e convidava outros a fazerem o mesmo – papéis, cacos de vidro, tudo o que podia ser sinal de irreverência para com a beleza da natureza e, ao mesmo tempo, de perigo para o bem-estar do próximo. Dizia: “Também a natureza é criatura de Deus e devemos respeitá-la”. E continuava: “Se deixar esse caco de vidro aqui, quando a maré subir, as pessoas podem não o ver e machucar o pé. E o pé dessa pessoa é o meu pé”, traduzindo assim o preceito da regra de ouro presente na consciência humana e em quase todas as religiões: “não fazer ao outro o que não gostaria que fosse feito a você”.

Na recorrência do centenário de Ginetta, acreditamos ser mais que oportuno lembrar o seu testemunho que pode ser de luz e orientação a quem precisa de encorajamento para não desistir da fé de que fraternidade e justiça social são categorias possíveis de ação e não só bonitas palavras.

 

Sandra Ribeiro

O texto foi originalmente publicado na edição de outubro de 2018 da revista Cidade Nova