No primeiro capítulo do seu Evangelho, Lucas nos oferece a única página do Novo Testamento em que são protagonistas duas mulheres: Maria e Isabel.
Isabel vivia em uma aldeia perto de Jerusalém, a cerca de 150 quilômetros de Nazaré. Maria, logo após receber o anúncio do anjo de que se tornaria a mãe de Jesus (Lc 1,26-38), enfrentou a longa viagem até aquela localidade. Não conhecemos os detalhes dessa jornada, sabemos apenas que Maria “foi apressadamente à região montanhosa”. Mas qual foi o motivo de sua ida até lá?
Maria foi para partilhar essa alegria com Isabel que, de modo semelhante, havia recebido de Deus a graça de conceber um filho; mas foi também para estar ao lado dela e ajudá-la durante os últimos meses da gravidez. É a história de duas mulheres, de duas gestações “impossíveis”. Quem, melhor do que Isabel, poderia entender Maria, para compartilhar essa experiência? É desse encontro que brota o canto do Magnificat.
“A minha alma engrandece o Senhor.”
“Suas palavras são a expressão de um grande amor e de uma exultante alegria, o que explica por que sua mente e sua vida se elevam no espírito. Maria não diz: ‘Eu engrandeço o Senhor’, mas sim ‘A minha alma [engrandece o Senhor]’; como se quisesse dizer: ‘toda a minha vida e os meus sentidos são como que sustentados pelo amor divino’ [...]”1, escreve Martinho Lutero em seu comentário sobre o Magnificat.
O verbo “engrandecer”, tornar grande, revela uma sensação de alegria despertada pela descoberta de que Deus é maior do que se poderia esperar. Essa alegria reflete uma profunda humildade e um profundo senso de gratidão e de reconhecimento.
Como enfatiza o teólogo italiano Ermes Ronchi, religioso servita: “O Magnificat é o Evangelho de Maria, sua Boa Nova que alcança todas as gerações”. Dez vezes a jovem de Nazaré repete: “Foi Ele quem fez...”², como uma espécie de novo Decálogo, de novos Dez Mandamentos que subvertem as lógicas do mundo.
É natural nos perguntarmos se ainda conservamos o senso de encanto e de admiração na nossa vida do dia a dia e na vida de oração, diante de tudo o que Deus fez e continua fazendo. “[...] Sem abertura à novidade e [...] às surpresas de Deus, sem espanto, a fé torna-se uma cantilena cansativa que morre lentamente e se torna um hábito, um hábito social”3.
“A minha alma engrandece o Senhor.”
O cântico de Maria não é simplesmente uma oração de louvor intimista, mas um louvor profético, caracterizado por uma constante referência a passagens da Sagrada Escritura⁴, indicando o rumo da história segundo o coração de Deus. Louvar a Deus significa tomar posição ao lado dos pequeninos, acreditar que o mundo pode e deve mudar.
As palavras desse hino nos convidam a compreender a intervenção salvífica de Deus em nossa história pessoal e comunitária, desde nossa experiência individual até a de toda a humanidade, do momento presente até os novos céus e a nova terra inaugurada pela revolução social do Evangelho.
“A minha alma engrandece o Senhor.”
Com essas palavras também nós somos convidados a fazer da nossa vida um louvor vivo, a reconhecer as “grandes coisas” todos os dias, a unir nossa voz à voz de Maria para proclamar que Deus é fiel, que sua misericórdia se estende de geração em geração e que seu reino de justiça e amor já está se realizando entre nós.
Chiara Lubich já havia compreendido essa dimensão revolucionária do cântico de Maria quando escreveu aos jovens: “Leia o Magnificat e nele encontrará a primeira e mais potente página da Doutrina Social Cristã. Quem, e quando, haverá de realizá-la completamente?”5
A pergunta permanece em aberto e nos questiona. A intervenção de Deus não deveria ficar restrita à intimidade do coração, mas é preciso que se manifeste nos relacionamentos, na vida comum, na trama das gerações futuras.
Org.: Patrizia Mazzola com a comissão da Palavra de Vida
1 Cf. Martin Lutero. Commento al Magnificat, 1520, https://www.associazionealec.it/wp-content/uploads/2017/09/1.3-Lutero-testo-commentomagnificat.pdf.
2 Cf. Ermes Ronchi. Magnificat, una finestra aperta sul futuro. Avvenire, 12 agosto 2021.
3 Cf. Papa Francisco. Ângelus. Praça de São Pedro, Roma, 4 de julho de 2021.
4 Cf. Gérard Rossé. Il Vangelo di Luca. Roma: Città Nuova, 1992, p. 69.
5 LUBICH, Chiara. Pensamentos Gen. São Paulo: Cidade Nova, 1971, p. 56 (2ª ed.).
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