É possível obrigar alguém a amar? Se entendermos o amor como um sentimento, isso evidentemente é impossível! Mas se entendermos o amor como um dom de Deus, a coisa é diferente.
Esta Palavra de Vida se encontra na Carta aos Romanos, na qual Paulo descreve justamente a relação entre a Lei e o amor, afirmando que o amor é o pleno cumprimento da Lei. Pouco antes, ele nos tinha revelado a origem desse amor: “Deus, contudo, prova o seu amor para conosco, pelo fato de que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8). Também a Primeira Carta de João diz: “Nisto está o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou e enviou o seu Filho como oferenda de expiação pelos nossos pecados” (1Jo 4,10).
“O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o pleno cumprimento da Lei.”
Nenhum de nós pode dar o que não tem. Agostinho tinha compreendido isso muito bem quando, dirigindo-se diretamente a Deus, afirmou: “Concede-me o que ordenas e ordena o que quiseres!1”. Recebemos o dom inestimável do amor de Deus e somos chamados a não retê-lo, mas a fazê-lo circular. Sendo destinatários do amor de Deus, podemos nos tornar seus atores; sendo amados, somos chamados a amar, participando assim da própria vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo: o Amante, o Amado e o Amor.
Paulo declara que não devemos ter dívida alguma para com ninguém, a não ser esse amor mútuo, pois quem ama o próximo cumpre plenamente a Lei2.
“O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o pleno cumprimento da Lei.”
“O verdadeiro amor ao próximo – afirma Chiara Lubich – não pratica mal algum. Portanto, é um amor que nos leva a viver todos os mandamentos de Deus, sem excluir nenhum, pois o primeiro objetivo desses mandamentos é fazer-nos evitar qualquer forma de mal que poderíamos praticar contra nós mesmos ou contra os nossos irmãos e irmãs.³”
Considerados assim, os mandamentos da Lei se tornam – mais do que uma imposição – uma dádiva do amor de Deus: eles não delimitam o nosso amor, mas o liberam plenamente.
“O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o pleno cumprimento da Lei.”
Para alcançar esse “pleno cumprimento”, o primeiro passo no amor ao próximo é não lhe fazer nada de mal. Mas depois é preciso tornar-se criativo no amor: “Não é suficiente não praticar o mal contra o próximo – lembrou-nos o papa Francisco – “mas é necessário escolher fazer o bem, aproveitando as ocasiões para dar bom testemunho de que somos discípulos de Jesus4”.
Como, então, podemos viver esta Palavra de Vida? Recoloquemos o amor no centro da nossa vida. Amemos os outros concretamente como Jesus os amaria: Ele é a plenitude do amor, inteiramente doado a Deus e à humanidade. Dele podemos aprender a medida extrema do amor.
“O amor não faz nenhum mal contra o próximo. Portanto, o amor é o pleno cumprimento da Lei.”
Doris, uma jovem escocesa, nos conta: “Durante nossas visitas regulares a um abrigo para moradores de rua, eu entro em um mundo muito diferente do meu. Sei que o que importa não é tanto como me sinto, mas sim como amo. Um dia, um homem com uma profunda tristeza no rosto me confidenciou que se sentia disposto a acabar com tudo, que até queria morrer. Eu fiquei simplesmente escutando, depois compartilhamos um sanduíche e um café. E entendi que ouvir e estar presente já era uma forma de demonstrar amor. Quando chegou a hora de ir embora, ele me deu um forte abraço e sorriu para mim, dizendo que aquilo que estávamos fazendo era muito importante, não só para ele, mas para todos os que estavam ali. Senti o incrível poder do amor. Não sei se consegui ‘salvá-lo’, mas a gratidão dele me encheu de alegria, e isso, por si só, já é uma experiência muito forte.”
Organizado por Claudio Cianfaglioni com a comissão da Palavra de Vida
1) 1 Agostinho, Confissões, 10, 29.
2) Cf. Rm 13,8.
3) LUBICH, Chiara. O amor completo e perfeito. Palavra de Vida, setembro de 1993.
4) Papa Francisco, Audiência Geral, 3 de janeiro de 2018.