Para além das questões que envolvem mais diretamente a inteligência artificial (IA), é evidente que a centralidade da pessoa humana enquanto projeto de Deus é o fundamento de toda a carta encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV. Portanto, essa também me parece ser a tônica do capítulo 4º do documento que se refere à cultura do poder e a civilização do amor sobre o qual gostaria de tecer aqui uma breve reflexão.
Enquanto – sob falsos argumentos em favor da segurança e da paz – certos governos e multinacionais se beneficiam dos conflitos armados para manter-se no poder, a vida humana pouco ou nada vale. A resposta a esse projeto de destruição à vida está na sintetizada na expressão “civilização do amor”, de Paulo VI, recuperada pelo Papa Leão XIV nessa sua primeira encíclica.
O que me chama a atenção na reflexão do papa atual – a exemplo do que já encontramos em outros documentos da Igreja ao longo da sua história – é a posição proativa diante do desafio que esse quadro nos impõe. Não basta apenas a leitura crítica; são necessárias atitudes concretas. Atitudes que nascem, antes de tudo, de escolhas pessoais. Isso porque, não se impõe a paz em termos estruturais, mas ela é conquistada livre e voluntariamente, mediante a contribuição de cada pessoa de boa vontade. Não é possível criar estruturas sociais justas e pacíficas se elas não têm raiz no coração humano.
Reconheço que isso pode parecer bastante romântico aos olhos dos mais críticos. Mas é precisamente essa a proposta do Evangelho que, a meu ver, o Papa apresenta como caminho inequívoco de construção da civilização do amor. Uma proposta que, seguindo os passos do Cristo, é concreta, encarnada. Nesse sentido, a paz começa nos gestos simples e pequenos, mas autênticos e, por isso, potentes como desarmar as palavras, construir a paz na justiça, assumir o olhar das vítimas, cultivar o saudável realismo e revitalizar o diálogo.
Eu costumo pensar que não podemos dizer que esse tipo de gesto não dá resultado até que o realizemos verdadeiramente. Nesse sentido, temos ainda muito o que aprender e realizar em termos do uso das palavras, da prática da justiça e do diálogo e assim por diante. O caminho é longo, mas é inevitável se queremos, de fato, construir uma civilização que não relativize a vida humana. Por isso, penso que líderes com a visão segundo a qual o uso de armas é indispensável para se garantir a paz não assumem o seu papel sem a conivência de toda uma população que os escolheu para assumir o poder. Trata-se, pois, de fazer uma escolha entre a cultura do poder e a civilização do amor.
Se no cotidiano realizamos escolhas que não constroem a paz nas nossas relações mais diretas, dificilmente iremos fazer outro tipo de escolha quando temos a responsabilidade de votar e escolher nossos governantes. A civilização do amor começa dentro de nós e se materializa nessas relações. E como deixa claro o Papa Leão XIV, não há inteligência artificial com competência moral para fazer isso por nós.
Texto originalmente divulgado por Vatican News.